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Paralisação dos Caminhoneiros e Paralisia Intelectual

O episódio que vivemos nos últimos dias é mais uma oportunidade de observarmos os sintomas de uma profunda crise intelectual que o país enfrenta, e que vem se aprofundando há décadas.

As reações da  “intelectualidade” Tupiniquim são emblemáticas disso e se por um lado não existe nenhuma surpresa neste fato, por outro o “Brasil que acha que pensa” demonstra que é possível encontrar um alçapão no fundo do poço.

Temos, de um lado, os críticos ferrenhos da paralisação, que desde o primeiro momento gritaram “locaute, manobra sindicalista, vagabundos etc”. Esse pessoal recusa-se a engajar suas faculdades mentais com dados da realidade. Tudo se passa num mundo ideal, onde se entregam à masturbação mental de soluções impossíveis ou parte de pensamentos doutrinários “nós (insira grupo) defendemos que (insira pretenso dogma de ideologia X ou Y)”. No fundo, não querem nada, apenas jamais sujar as mãos ou tomar alguma atitude. Manterão-se às margens da realidade para poderem assim ficar no eterno mimimi vitimista de dentro de suas torres de marfim no Instituto Liberal e semelhantes.

Claro, do outro lado temos os eufóricos da redenção pelo caos e pela catarse, que também estão totalmente desconectados da realidade e também não ajudam em nada. Exibem um voluntarismo adolescente, mas não conseguem sequer propor o que acontecerá depois que “derrubarmos tudo”. Querem “Intervenção Militar Já”, mas são sequer capazes de produzir um rascunho tosco de plano de como isso aconteceria. Vocês querem mesmo um caos de onde não sabem como irão sair, apenas para imolar todas as suas justificadas frustrações? Estão dispostos a bancar um tudo ou nada? Mesmo? Acredito que esses serão os primeiros a virar a casaca e pedir arrego assim que acabar a Coca Zero na geladeira de casa.

É curioso observar que ambos grupos firmaram posição de imediato, quando sequer havia informações para cravar qualquer diagnóstico ou previsão. Desde então, apenas dobraram a aposta em seus palpites iniciais, feitos de bate e pronto, como um arco-reflexo de suas crenças e ideologias. Durante o desenrolar da paralisação, os dois lados vêm ignorando solenemente quaisquer desdobramentos que possam jogar alguma dúvida sobre suas certezas

Pegue sua pipoca e assista a esse show de confirmation bias, onde cada um pinça os dados e notícias que reforçam suas apostas iniciais, ignorando os demais que não sirvam à narrativa que querem contar para si mesmos. A bolha, no entanto, não é hermética e inevitavelmente alguém levanta algum argumento que pode colocar suas certezas em cheque. Nesse momento, a dissonância cognitiva histérica toma conta dos dois lados e,  ao tentar lidar com algum dado que não encaixe nas suas narrativas, passam a descreditar o mensageiro, duvidar do conteúdo da mensagem ou simplesmente enfiam a cabeça na areia. Por isso, tantas “tretas” de Facebook entre amigos eclodiram, seguidas do “tive que dar um block” de peito estufado. Não querem mais o desconforto da dissonância cognitiva, logo bloqueiam quem os fez experimentá-la. 

No momento, quase ninguém está lidando com a realidade ou sequer tentando entendê-la. Há apenas uma gritaria infernal de modelos prontos e teorias simplistas, típicos de mentes dogmáticas, reféns de ideologias. Como disse Jung:

“As pessoas não possuem idéias, são as idéias que possuem as pessoas”

E assim segue a nossa direita à deriva. Liberais clamando que se você é liberal, você não pode pensar isso ou aquilo. E conservadores idem. Esquecem que o cerne do conservadorismo é a aplicação da prudência, a sabedoria prática, que impede um indivíduo de encontrar-se refém de amarras ideológicas, analisando assim cada situação como única, com base em dados da realidade concreta. Mas numa terra de personalidades fracas e inseguras, onde aceitação e pertencimento a tribos e grupos parecem ser tão necessários à sobrevivência como o ar que respiramos, o conservadorismo foi reduzido a um grupo de Facebook com um post alfinetado no topo,  cheio de regrinhas para fazer parte do clubinho.

Enquanto isso, a esquerda e os macacos velhos oportunistas do establishment, apesar de muito acuados, estão sobrevoando a carniça Brasil cada vez mais de perto, esperando para aproveitar qualquer chance de tirar uma casquinha.

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