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Trump só tem a ganhar com o ataque aéreo à Síria

O Ataque à Síria e a visão fora da caixa de Scott Adams

Não é a primeira vez que cito Scott Adams nos meus artigos. Ele tem mostrado um índice de acerto impressionante no que diz respeito à Trump e suas ações. Além de ter sido um dos primeiros a prever a vitória do bilionário, Adams também tem oferecido interpretações muito perspicazes sobre o mindset do presidente americano.

Num assunto tão espinhoso como o suposto ataque com uso de armas químicas que Assad teria perpetrado contra o seu povo, bem como a resposta rápida dos EUA na forma de 59 mísseis Tomahawk, vale a pena ler o que Adams tem a dizer a respeito. Concorde com ele ou não. Principalmente no que toca a resposta americana.

Mas vamos olhar para o “suposto ataque” químico por parte do governo Assad. Digo “suposto ataque” porque concordo com Adams que algo não cheira bem nessa história. Minha primeira reação ao ver as notícias foi a incoerência estratégica de tal ação, caso ela tenha mesmo partido de Assad. O ditador sírio encontrava-se na posição mais forte dos últimos anos, finalmente ganhando terreno contra a ISIS e outros grupos insurgentes, contando com o apoio da Russia de Putin e com a administração Trump disposta a deixá-lo em paz, considerando-o um mal menor e priorizando o combate ao Estado Islâmico.

Para deixar claro, não estou marcando posição ou afirmando que o ataque com armas químicas não partiu de Assad. Mas, se tivesse que apostar meu dinheiro, não colocaria minhas fichas nessa hipótese. Assad nada tinha a ganhar com isso, e muito a perder.

Concordo com Adams quando ele diz que provavelmente nunca saberemos o que realmente aconteceu ali. O que sabemos e parece crível até o momento :

  • Houve de fato um bombardeio aéreo por parte do exército de Assad na área onde pessoas morreram vítimas do gás sarin.
  • A versão do governo sírio, bem como da Russia é de que os bombardeios realizados pelo governo Sírio – confirmando que ataques aéreos aconteceram de fato – foram convencionais, ou seja, jogaram bombas normais e não armas químicas nos alvos. As mortes por gás sarin, segundo esta versão, ocorreram porque os ataques aéreos atingiram depósitos de armamentos de rebeldes, onde estoques de gás sarin estariam sendo fabricados ou armazenados.
  • A resposta americana com 59 mísseis Tomahawk foi na verdade, extremamente contida. Destruiu alguns caças MIGs de origem russa, hangares e infra-estrutura ao redor do aeroporto. No entanto, até o momento em que escrevo este artigo, a pista da base aérea bombardeada continua operacional segundo relatos.

É aqui que entra a parte mais interessante da interpretação de Adams. Segundo ele, Trump também teria farejado que algo não cheira bem nessa história toda, mas decidiu por uma rápida retaliação mesmo assim. Mas primeiro, vamos recapitular a lista dos fatores composta por Adams que o levou a apostar que a narrativa de que Assad estaria por trás do ataque seria bullshit.

  • Timing oportuno para o incidente
  • Abundância de evidencias visuais e imagens de alto impacto.
  • Uma cobertura e documentação em vídeos e fotos tão vasta que chega a ser suspeita para um local remoto sem cobertura da imprensa ou algo que o valha.
  • Nenhuma motivação para Assad usar armas químicas contra a população síria, colocando o seu próprio regime em risco.
  • O uso de armas químicas também não seria um ato que agradaria Putin, seu principal aliado.
  • Trata-se de um tipo de ataque que um presidente americano não pode ignorar e sair com sua imagem ilesa.
  • Um cenário que se assemelha a narrativa das “Armas de destruição em Massa” usada para justificar a invasão do Iraque e derrubada do regime de Saddam Hussein.
  • Chega a parecer que alguém planejou essa tragédia e estava a postos para registrá-la em filme.

 

Por todos os fatores acima, as aparências apontam para um evento manufaturado na opinião de Adams.

Agora chegamos ao cerne da questão e porque vale a pena acompanharmos as análises fora da caixa do “especialista em Trump”

Trump não é bobo, e provavelmente farejou as mesmas pistas que Adams. No entanto, respondeu com mísseis. Por que?

De acordo com Adams, porque neste cenário, um ataque contido como o que vimos, traria muito mais benefícios do que prejuízos para Trump e para os EUA.

“Vamos supor que o mundo acredite que o governo Assad, ou uma facção rebelde de seu governo tenha lançado o ataque químico por conta própria. O que o presidente americano deve fazer? Se Trump não fizer nada, ele parece fraco. Mas se ele lançar 59 mísseis Tomahawk em uma base militar Síria alguns dias depois, e foi o que ele fez, os EUA obtém uma série de benefícios a um custo baixo.”

Explica Adams, destrinchando seu argumento ponto a ponto na sequência:

  • Trump rebateu a acusação de que não passava de uma marionete de Putin. Ele não aparenta mais estar sob influência dos Russos. E esse era um dos maiores problemas para Trump, o que era um problema para os EUA também. Ninguém quer um presidente que está sob uma nuvem de suspeitas de relações espúrias com os Russos.
  • Trump respondeu (parcialmente) as alegações de que é um incompetente. Você pode odiar sua ação militar, mas até mesmos os críticos habituais de Trump chamaram a reação de comedida e racional. Goste ou não, a credibilidade de Trump tende a subir depois deste episódio. Ações militares bem-sucedidas têm este efeito na imagem dos presidentes.
  • Trump colocou cartas fortes na mesa para as conversas com Xi Jinping, que ocorrem neste exato momento, sobre a Coréia do Norte. Será que a China duvida que Trump tomará medidas sobre o que acontece debaixo do nariz dos chineses caso eles não tomem contam da situação? A negociação com a China acabou de se tornar mais fácil.
  • O Irã deve estar se sentindo mais flexível quando chegar a hora de conversar sobre o seu programa nuclear.
  • O plano de Trump para uma Zona Segura na Síria requer controle da força aérea síria por questões de segurança. Isso também ficou mais fácil.
  • Depois que a ISIS estiver suficientemente debilitada, o governo sírio terá que negociar com as demais entidades presentes no país alguma forma de paz duradoura que mantenha potenciais futuros refugiados ali mesmo. O governo da Síria acabou de se tornar mais flexível após o ataque, já que provavelmente não tem a intenção de ver o resto de seu poderio militar destruído.
  • Israel está mais segura toda vez que o poderio aéreo de um adversário é reduzido.

Esses são os benefícios apontados por Adams, no lado dos riscos, ele coloca a possibilidade da escalada de uma guerra contra a Rússia, cujo risco atribuído pelo analista aproxima-se de zero, com o que tendo a concordar. Os russos foram avisados do ataque e provavelmente Putin esperaria semelhante reação e tende a respeitá-la.

“A Russia fará alarde sobre o caso para ganhar alguns pontos, mas a longo prazo tende a colaborar com os americanos no combate à ISIS” Concluí Adams, adicionando:

“Se vier à tona que o ataque químico que causou a resposta militar américa não partiu de Assad, pouco importa. Trump já terá colhido os benefícios citados acima.”

Adiciono outro ponto aqui. Os mais ferrenhos críticos da ação militar até o momento partiram dos apoiadores Trump de viés isolacionista e anti-intervencionista, como Paul Joseph Watson, Ron Paul, Ann Coulter e Stefan Molyneux para citar alguns. No entanto, são pessoas que jamais se alinharão com a esquerda e a oposição “oficial” a Trump e tenderão a voltar a apoiar, mesmo que de maneira mais leve, o atual presidente.

Para concluir, voltemos a Adams:

“Eu duvido que esta ação militar seja um primeiro passo para depor Assad. Mas se Assad enxergar assim, os EUA fortaleceram sua posição perante ele. Eu não sou pró-guerra, logo esta ação militar me deixa alarmado da mesma forma que a maioria das pessoas. Porém, pensando objetivamente, a relação risco-benefício deste ataque à base síria é excepcionalmente boa. Raramente vemos tantos benefícios oriundos de uma operação militar tão restrita.

Eu inicialmente pensei que o presidente Trump não agiria militarmente para não favorecer uma mudança de regime na Síria e este ainda parece ser o caso. No entanto, quando o serviço de inteligência rastreou que o avião que jogou as bombas supostamente químicas partiu de uma base específica, a opção do ataque estava aberta e Trump a usou. Eu não tinha consciência que o exército americano sabe o que cada aeronave no espaço aéreo sírio faz a todo momento. É impressionante, beirando o inacreditável.”

Elton Flaubert e Filipe G. Martins publicaram artigos interessantes abordando outros aspectos do evento e recomendo suas leituras.

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