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Como o ciclismo mudou minha vida

Alguns anos atrás, eu estava em uma cama de hospital. Havia acabado de sair de uma cirurgia extensa após um sério acidente. Não havia certeza de uma recuperação total, e havia chances de eu não voltar a caminhar normalmente ou ter algumas sequelas. Só podia seguir o plano de recuperação à risca e ocupar minha cabeça, o que é difícil de fazer quando passamos dia após dia nessa situação.

E o tempo passa devagar no hospital. Sou apaixonado pela leitura, mas esse é um passatempo difícil quando suas veias estão cheias de opiáceos e analgésicos para controlar a dor. Já havia assistido todos os filmes “assistíveis” da programação do hospital e colocado todos os canais que acompanho no Youtube em dia. Não, eu ainda não tinha Netflix na época.

Comecei então a zapear a TV aleatoriamente. Eis que encontro uma transmissão ao vivo do Tour de France. A mais dura corrida de bicicleta do mundo, com provas que duram, em média 4 horas por dia, por 3 semanas a fio pelas mais belas paisagens da França e um vencedor ao final, aquele que completa o Tour em menor tempo.

Me pareceu uma boa maneira de matar o tempo. Comecei, religiosamente a acompanhar o Tour todos os dias.

Pouco a pouco, fui ficando fascinado por tudo aquilo. A brutal demanda física do esporte, com corridas de mais de 200km que terminavam com uma sequência de subidas arrasadoras nos Alpes e Pirineus. As descidas de montanhas a mais de 100km/h sobre uma magrela usando apenas um capacete e um colante. Chances reais de acidentes severos. Estratégias de equipe. Jogos psicológicos. Homens no auge de suas habilidades testando os seus limites físicos e mentais.

O que de início era uma maneira de passar o tempo e relaxar vendo o pessoal pedalar pelas aprazíveis paisagens francesas havia se transformado em um interesse real e em uma admiração sincera por aqueles ciclistas ao final do Tour. Inesperadamente, comecei a acompanhar o circuito de ciclismo internacional.

Pus na minha cabeça que, se eu saísse daquela situação e me recuperasse, iria comprar uma bike de corrida e começar a pedalar.

Dezoito meses depois, após uma longa e chata recuperação que envolveu 3 cirurgias, eu decidi começar a ir à academia, graças a minha esposa.  Dois meses depois investi em uma bike de corrida e os mínimos equipamentos necessários.

Foi paixão na primeira pedalada. Aquela bike leve como uma pluma, transformava cada pedalada em velocidade pura. Pegar a estrada e sentir que o vento no rosto era causado pela propulsão das minhas pernas era uma sensação indescritível.

Fui pedalando mais, mais rápido, mais longe e mais íngreme. O pedal nos finais de semana virou uma rotina e um prazer. Acompanhado ou sozinho, eu não via a hora de pegar a estrada. Passei a me alimentar de maneira mais saudável para estar em forma no final de semana.  Durante a semana, treinava na academia para a pedalada de sábado e domingo. Decidi me organizar melhor no trabalho para ter tempo de treinar. Perdi peso. Ganhei músculos.

O hábito e o prazer em pedalar colocaram o resto da minha vida em ordem.

No último final de semana, quando sofria em cima da bike mas sentia-me profundamente satisfeito, perguntei a mim mesmo porque tinha tanto prazer naquilo. Por que que me arriscava nessa atividade perigosa? Sim, corremos o risco de nos arrebentar no ciclismo de estrada, com sérias consequências. Ainda mais no meu caso que comecei essa história em uma cama de hospital, após um acidente. Ao tentar responder minha própria pergunta, percebi que para mim, o ciclismo representa uma metáfora do que é a vida.

O progresso depende do meu esforço. You get out what you put in como dizem os americanos. Você recebe o que você coloca. Minha velocidade e progresso são frutos de cada pedalada que dou. E como na vida, tenho que contar com a sorte e não posso ignorar que os caprichos do destino são parte do jogo. Grande parte por sinal. Procuro pedalar com prudência, estar atento a carros, caminhões, ciclistas e pedestres, fazer o máximo para me proteger, mas no final das contas, eu sou o objeto mais frágil na estrada. Basta o azar de um caminhão lamber o acostamento para acabar tudo ali. Game Over, caixão, mulher deixada sozinha, enterro e família em luto. Por outro lado, esse embate com a fragilidade me faz sentir mais vivo, apreciar cada momento em cima de uma bike e fora dela.

No ciclismo e na vida o caminho é longo e desistir no meio não é uma opção. Se pedalo 50km na ida, tenho que encarar mais cinquenta na volta. Não importa quão pregado esteja. Desistir não é uma saída, só resta controlar a respiração e pedalar com resiliência, até o ponto onde eu e a bicicleta nos tornamos uma coisa só. Com serotonina e dopamina fluindo nas veias, as rodas vão girando e sigo em frente  com a cabeça leve num estado de semi-nirvana entre o êxtase e exaustão. A imensidão do caminho pela frente me faz sentir pequeno e parte de algo maior ao mesmo tempo.

Ao redor do ciclismo, tudo começou a funcionar melhor na minha vida.

É sofrido, sem dúvida. Mas é um sofrimento cativante. Uma meditação em movimento. As horas de pedal semanais são um silêncio veloz, onde reflito sobre a vida, penso em novos projetos e no que vou escrever aqui no Bom Senso durante a semana. A estrada virou a minha igreja de domingo. Quase uma experiência espiritual.

Sei que nesse artigo não abordei os temas usuais, mas resolvi escrever isso para dar ao leitor mais insight sobre um aspecto da minha vida sobre o qual não falo muito. Acho que a vida de cada um de nós é um milagre cuja probabilidade é tão ínfima que não somos capaz de conceber. E devemos cuidar dela com carinho. A começar pela nossa própria vida. Dando passos e escolhendo correr riscos conscientes e necessários para nossa felicidade. Relato aqui uma experiência pessoal de como uma prática esportiva mudou minha vida e me deu estrutura para organizar diferentes áreas dela.

Longe de mim dar conselhos aos leitores de como devem fazer isso. Acredito, no entanto, que se queremos um mundo melhor, devemos começar por colocar nossa vida em ordem e buscar a nossa felicidade e realização (artigo “Quer ajudar o próximo? Seja egoísta.” para quem quiser saber mais).  E na minha experiência particular, descobrir o ciclismo foi um passo importante para que isso acontecesse.

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