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As duas direitas (ou: sobre a abissal diferença entre ser um liberal e um anti-esquerdista)

por Romildo Perez

 

Em seu livro “Democracy and Populism: Fear and Hatred”, publicado em 2005, o filósofo conservador húngaro John Lukacs (não confundir com o também húngaro, porém marxista, Georg Lukács) alertava, em tradução livre:

 

“A “esquerda” tem perdido o seu apelo, quase em toda parte. Pode ser que no futuro a verdadeira divisão não seja entre Direita e Esquerda, mas entre dois tipos de Direita: entre as pessoas de Direita cuja convicção fundamental é o seu desprezo pelos esquerdistas, odiando-os mais do que amam a liberdade, e aquelas que amam a liberdade mais do que temem os esquerdistas.”

 

Passada mais de uma década da publicação da obra, o cenário atual mostra que Lukacs ficou no zero a zero em suas previsões: metade se mostrou correta, a outra metade, não.

 

É preocupante, porém, saber que a metade do acerto não é exatamente aquela que muitos imaginam. E não me parece necessário um estudo científico ou filosófico profundo para se ter essa compreensão.

 

Vejamos.

 

O Erro: a coqueluche da esquerda nos anos 2000

 

Em 2005 havia uma firme sensação entre parte dos liberais e conservadores que a esquerda estava perdendo força em todo o mundo.

 

O que se viu nos anos que se seguiram, porém, foi exatamente o contrário: a ascensão ao poder em vários países do mundo, inclusive nos EUA e no Brasil, de uma “nova” esquerda com forte viés progressista, midiático e populista.

 

O crescimento galopante da esquerda, porém não se limitou ao campo político. Prova disso tem sido o apoderamento esquerdista de fatias importantes de movimentos sociais e culturais originalmente atrelados ao liberalismo, dos quais o movimento feminista pode ser citado como exemplo, impondo suas “pautas” e “narrativas”, a serviço da guerra de classes e do antagonismo tão necessários à sua dialética.

 

A falência do modelo esquerdista na América Latina – representada pela asfixia econômica da Venezuela e da Bolívia, pelo fim do Kirchnerismo na Argentina e pela provável e vindoura derrocada do Lulopetismo no Brasil, logo após as eleições de 2018 (sim, sim, Michel Temer é representante do Lulopetismo, quer os esquerdistas convictos queiram ou não), a vitória de Donald Trump nas eleições americanas e o protagonismo alcançado por Marine Le Pen nas próximas eleições francesas apontam para um arrefecimento gradual da predominância esquerdista nos centros decisórios de poder.

 

Entretanto, o mesmo não pode ser dito no campo das relações sociais. A mentalidade esquerdista – e nas matizes dessa, aquela mais radical e intolerante – impera e impera com força. Décadas e décadas de marxismo cultural implantados nas mentes de jovens e adultos demorarão muito a desaparecer.

 

Portanto, nessa Lukacs errou. E errou feio.

 

O acerto: as duas direitas e a mentalidade anti-esquerdista

 

Por outro lado, o filósofo acertou na mosca a segunda de suas previsões: uma imensa rachadura se formou naquilo que se convencionou chamar de “direita”, que, no senso comum congregaria numa única cesta  os liberais e os conservadores.

 

E os perigos dessa rachadura – especialmente se associada à predominância de uma esquerda mais radical bastante arraigada como a que se vê hoje – são flagrantes.

 

De fato, nas leituras em redes sociais, nas conversas mais sérias e até mesmo nos mais comezinhos bate-papos de bar noto cada vez mais em pessoas que se autodenominam liberais ou conservadores (ou simplesmente “de direita”) um ódio verdadeiro e sincero pelos esquerdistas, que em muito suplanta o seu ideal pelo respeito às liberdades.

 

Parafraseando o livro magistral de Mises, a cada dia que passa há mais e mais pessoas se convertendo à “mentalidade anti-esquerdista”, tal qual uma religião.

 

Se por acaso você se deparar com um anti-esquerdista por ai, é quase certo que, da boca para fora, ele se apresente como liberal, ordoliberal, conservador ou algo que o valha. Mas não se iluda. O anti-esquerdista não respeita ninguém que tenha uma visão diferente da dele, tampouco as individualidades de cada um, já que está cego por um objetivo maior: destruir a esquerda a qualquer custo.

 

O que o anti-esquerdista não percebe é que sua carta de valores o faz tão totalitário, autoritário, intolerante e refratário como o mais radical dos esquerdistas que ele tanto odeia. O reducionismo é a sua cartilha. Quantas vezes você já não ouviu coisas como:

 

 – Muçulmanos são todos terroristas em potencial!

 

 – Toda feminista é uma gorda mal comida com pai ausente!

 

– Não existe racismo no mundo, isso é invenção da mídia de esquerda!

 

– Todo esquerdista, independentemente de quem seja, merece o degredo! Tem que ter pulso firme com a esquerdalha!

 

 – Partidos de esquerda? São um câncer para a sociedade e devem ser todos extintos!

 

Há uma certa surdez intelectual no anti-esquerdista que o impede de ouvir e refletir sobre o que fala, dando de ombros à evidência do completo absurdo de tais afirmações – ao menos para quem se apresenta como liberal ou conservador.

 

Uma figura quixotesca, triste e patética. Cega e surda. Conheço vários anti-esquerdistas. Outros estão no caminho de se converterem. Gente inteligente, letrada e capaz. E isso é muito triste.

 

O flerte fatal com o populismo

 

A ferocidade do anti-esquerdista no combate ao esquerdismo anestesia valores morais e éticos e o flerte com o populismo não tarda a chegar.

 

Na verdade, o anti-esquerdista é um artífice do populismo. É massa de manobra intelectual, que não pensa duas vezes antes de defender e apoiar sujeitos como Jair Bolsonaro, figura dantesca, somente pelo fato dele “ter mão firme e peitar a esquerda”, dando de ombros para toda a carga estatizante, militaresca, corporativista e preconceituosa que ele representa. Isso apenas para ficar nesse exemplo.

 

Nessa esteira, desde que extirpada a ameaça comunista, pouco importa para o anti-esquerdista estar trocando o populista da oposição por um de situação. O que ele quer mesmo catapultar ao poder quem se mostre apto a combater o “mal maior”, mesmo que isso implique em se curvar servilmente à liderança de um “salvador da pátria”.

 

O senso de auto-preservação fala mais alto: vigilância constante contra o “perigo vermelho”. As regras básicas do regime democrático e o respeito às liberdades individuais ficam totalmente em segundo (ou terceiro, ou quarto) plano.

 

A história nos prova para onde esse tipo de fanatismo, medo e paranoia nos levou.

 

Portanto, leitor liberal ou conservador de verdade, se você não é um anti-esquerdista, muito cuidado. Pode ter um deles bem aí ao seu lado, pronto para deferir seus ataques irracionais voltados ao grande inimigo, custe o que custar.

 

Mais cedo ou mais tarde, espero que você perceba que essa figura é tão ou mais perniciosa que o esquerdinha caviar que você insiste em criticar.

 

Não ceder ao canto da sereia do caminho da intolerância é a chave do enigma.

 

Quo vadis, Brasil?

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