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Letra, música e a objetificação do sexo oposto

por Romildo Perez

 

Pare. Ouça. Leia com atenção.

 

Mexidinho

 

”Cheguei nas pontas dos pés

Contando as notas de dez que tinham sobrado

E meu marido fingiu que tava dormindo

Virado pro outro lado

Me ferrei, exalou as pingas que eu tomei

Nem passou três, dois, um e começou

 

Onde cê tava?

Com quem andava?

O que é que eu faço

Por que é que eu não te largo?

 

É por causa que eu faço mexidinho

Faço gostosinho, eu te pego assim e faço

É por que eu faço mexidinho

Faço gostosinho e fim de papo”

 

Para quem não conhece, essa é “Mexidinho”, canção que ajudou a alçar as irmãs mato-grossenses Maiara e Maraísa ao segundo lugar no ranking de artistas femininas mais ouvidas no Brasil em 2016 (http://www.techtudo.com.br/noticias/noticia/2016/12/spotify-2016-musicas-mais-ouvidas-e-artistas-preferidos-do-ano.html).

 

A bem da verdade, esse é apenas um exemplo pinçado numa infinidade de músicas de sucesso recente, todas cantadas por mulheres – do sertanejo “traída vingativa” de Marília Mendonça ao funk “tô poderosa na pista” de Anitta – ligadas por um aspecto em comum: a “objetificação” do sexo oposto.

 

Para além da interpretação literal, o subtexto dessas composições denota uma postura combativa e reativa ao sexo oposto, em que o conflito e a necessidade de submissão são a regra. Homens e mulheres, nesse cenário, integram grupos antagônicos, que se digladiam à exaustão, para que ao final haja vencedores e vencidos, numa representação reducionista e obtusa de mundo.

 

Se até um passado recente era o homem quem ocupava esse espaço de subjugador e seviciador do eu feminino nas músicas de sucesso (“É o tchan”, alguém?), agora esse papel (também) cabe à mulher. A grande novidade está ai.

 

Chama a atenção, contudo, que esse conteúdo não seja criticado na mesma proporção dedicada àquele tido como “machista”, dando a impressão de que a inversão dos papeis de sujeito e objeto nessas canções é justificável, na medida em que serviria como resposta a séculos de imposição da vontade masculina no substrato social. Logo, uma falsa sensação de desforra chancelaria a mensagem passada.

 

Discorda?

 

Faça o seguinte exercício: substitua a narradora mulher de “Mexidinho” por um homem. Leia a letra novamente. E aí, acha que estariam caindo de pau na música ou não? Textões se amontoariam no Facebook. Debates eclodiriam na TV.

 

Não me parece, porém, que uma complacência com a objetificação do homem, representada simbolicamente nessas canções, mas com ramificações outras possa de alguma forma contribuir para a construção de uma sociedade livre.

 

Parte disso reflete uma tendência atual em tratar como correta qualquer manifestação de “minorias” (aspas deliberadas) única e exclusivamente em atenção ao autor, sem analisar com a devida profundidade o seu conteúdo. A mensagem veiculada quase que ganha um passe livre automático, em que o senso crítico é deixado de lado em prol de argumentos como dívida histórica, empoderamento e compensação.

 

No caso das músicas, combater fogo com fogo, aceitando passivamente ou reputando como natural e justo o direito da mulher objetificar o sexo oposto, como uma forma de recompensa ou vingança, parece tão preconceituoso e desagregador quanto dar ao homem a mesma prerrogativa.

 

Há muitas pessoas bem intencionadas que rezam por essa cartilha. O que elas não percebem é que, ao se comportar dessa forma, caem em contradição com a busca de igualdade de oportunidade e tratamento que elas tanto se propõem a defender. O potencial destrutivo da manutenção dessa mentalidade é devastador.

 

Sem ceder ao impulso da censura ou da proibição, o correto é adotar a coerência: respeito ao indivíduo, independentemente de que a grupo pertença, sem privilégios e sem maniqueísmos, sem ter que destruir um para se afirmar o outro.

 

Iguais, na construção da lógica da liberdade.

 

Quo vadis, Brasil?