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A fila tem que andar

por Renaite Paulista

Prezados leitores, hoje o texto que quero dividir com vocês está mais ligado às pequenas atitudes de cada um de nós e menos àquelas dos figurões da política. Apesar disso, ou justamente por isso, ele diz muito sobre como encaramos a política e o Estado, como queremos e exercitamos nossos valores civilizatórios na terra onde cantam os sabiás.

Domingo, sol, quatro da tarde. Por algum motivo que não lembro, acabei tendo que almoçar a essa hora. Com a grana mais apertada e a barriga roncando de fome, o destino foi aquele restaurante simples e gostoso que serve galeto com acompanhamentos, com fartura.

O restaurante tem um grande balcão com alguns banquinhos colocados um ao lado do outro. Do lado de dentro, um churrasqueiro, um cozinheiro, dois garçons e uma mulher no caixa que trabalham freneticamente. Os trabalhadores não têm tempo para nada, exceto para tomar uma água de vez em quando, antes de passar mal com o calor.

Havia alguns bancos vazios e do lado de fora um grupo de umas cinco pessoas esperava para sentar. Eis que chega uma senhora com outras duas pessoas, pergunta ao grupo se eles estão juntos, e ao ouvir que sim e notar vários bancos vazios, se move para sentar.

Pronto, confusão instaurada. O primeiro grupo, o de cinco, reclama que estava esperando eu sair para todos comerem juntos e bla bla bla. A senhora que ia sentar reclama que eles poderiam já ter se sentado separadamente, e que lá não se espera que grupos grandes fiquem juntos. Como o texto não é o programa do Ratinho, já aviso, não houve um grande barraco ou agressão física, e o intuito aqui não é narrar a pequena discussão de 5 minutos que houve.

A parte que interessa: ao final da conversa entre os grupos, uma moça envolvida fala algo assim: “Poxa, mas não tem ninguém aqui para organizar a fila”, ao que todos os envolvidos na discussão pareceram concordar, não obstante todos os trabalhadores do restaurante estarem trabalhando freneticamente.

Saio do restaurante e passo no supermercado. Esperando na fila, eis que o caixa ao lado abre repentinamente. Pronto (x2), as pessoas do lado direito e esquerdo correm para o novo caixa, confusão para ver quem deve ficar na frente da fila. Mais uma vez, alguém grita: “Pô, mas não tem ninguém para organizar a fila”, enquanto todos os trabalhadores do supermercado corriam para repor os estoques.

Por que em um restaurante simples, despojado, sem hostess, onde as pessoas que estão esperando claramente conseguem ver quem chegou antes, é necessário que alguém da equipe pare de fazer seu trabalho para organizar uma fila, ou ainda, será que o restaurante deve aumentar seus custos e contratar um organizador de fila ou uma bela hostess? Para o supermercado, deve o gerente parar de olhar se as gôndolas estão arrumadas, cobrar a reposição do estoque, tirar dúvidas, para organizar filas que já estão pintadas no chão?

Mais ainda, por que as próprias pessoas não conseguem conversar entre si, respeitosamente, sobre as noções básicas de uma vida em sociedade, devendo elas próprias se organizar para ficarem em fila, ao invés de sempre clamarem por alguém “de fora” com poderes para direcionar o que elas devem fazer, como se comportar, como se organizar?

Os exemplos descritos mostram duas coisas: as pessoas têm dificuldade de travar uma conversa respeitosa caso ocorra alguma situação simples do cotidiano com uma pequena discordância, e mais que isso, esperam a ação de alguém de fora, alguém com autoridade, um “governante de filas” para mostrar às pessoas como e o que pode ser feito.

Não deveríamos, como sociedade, aprender a não esperar alguém “de fora” com poderes para nos regular, nos dizer o que e como se comportar em uma dada situação mais simples? Não poderíamos, não teríamos a capacidade de fazer as coisas por nós mesmos, com diálogo, conversando, nos autorregulando em situações não complexas?

Do contrário, o restaurante ou o supermercado teriam que repor o estoque mais devagar, pois o garçom ou o gerente perderiam tempo arrumando uma fila simples que as próprias pessoas poderiam organizar e respeitar, ou pior, o restaurante ou o supermercado teriam que contratar mais alguém, desperdiçando as habilidades do indivíduo e gerando mais gastos bobos que certamente seriam repassados para o consumidor final.

Na realidade, essas duas situações refletem o padrão ou os valores do brasileiro. No fundo, esperamos sempre alguém de fora, um “organizador de filas”, porque estamos acostumados com alguém do Estado ou ‘de fora” nos regulando, se metendo em qualquer assunto. Adoramos uma “autoridade”, estatal ou não, apesar de falarmos mal de muitas delas.

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Em inúmeras situações, o Estado, um governante ou uma autoridade devem meter o bedelho para determinar o que as pessoas devem fazer. Contudo, se ele – a autoridade – faz isso em muitas ocasiões, muitas das quais mais bobas, simples, que as próprias pessoas poderiam resolver, ele – a autoridade – fica cheio de atividades e passa a não ter prioridades. Ao fazer muitas tarefas, as faz mal, não as controla. Com a dificuldade do Estado em prestar os serviços, logo surge espaço para pessoas de dentro da máquina estatal venderem facilidades, abrindo-se justamente espaço para a corrupção.

O Estado é importante, deve usar seus poderes para algumas situações, mas não podemos esperar que ele regule ou resolva tudo em nossas vidas. No fundo, quando pedimos um organizador de filas para situações simples, ignorando ainda os custos, reproduzimos os valores que, como sociedade, esperamos da nossa nação e dos nossos governantes. Terceirizamos responsabilidades que deveriam/poderiam ser assumidas por nós mesmos.

Por tal motivo, cotidianamente, vemos o mau funcionamento de vários serviços e a cobrança de facilidades nas inúmeras “filas” organizadas pelo Estado.

Precisamos mudar nossa cultura de sempre esperar uma autoridade, estatal ou não, determinar o que devemos fazer. Vamos deixar a autoridade resolver o que é mais complexo e nos organizar nas simples situações da vida cotidiana. Do contrário, daqui a pouco teremos uma lei obrigando os estabelecimentos comerciais a contratarem um organizador de filas.