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O Globo, a Veja e o vitimismo dos professores universitários

por Fayez Nachdenklich em colaboração para o BomSenso.org

 

Dois artigos publicados na semana que passou deram o que falar. O primeiro foi o editorial intitulado “Crise força o fim do injusto ensino superior gratuito”, publicado na edição de 24 de julho do jornal “O Globo”. O segundo foi o artigo de opinião intitulado “Professor ganha mal?”, de Cláudio de Moura Castro, publicado pela revista Veja.

Ambos os artigos foram alvos de críticas e notas de repúdio inflamadas nas redes sociais por parte de sindicatos e docentes de ensino superior. O ponto central dessas notas nada mais é do que um pouco mais do mesmo discurso falacioso de sempre: que a “mídia golpista” estaria preparando o terreno para a privatização do famigerado “Ensino superior público, gratuito e de qualidade”. Sustentam, ainda, que essa visão: 1) vai de encontro àquela vigente em países desenvolvidos, do qual seria exemplo a Alemanha, que se decidiu recentemente por garantir a gratuidade em todas as universidades alemãs, um mais um 7 a 1 aplicado no Brasil; 2) que os docentes não ganham bem; pelo contrário, ganham mal; 3) que o professor é desvalorizado, quando na verdade deveria ser a profissão melhor remunerada de todas, visto que forma todas as outras. Argumentam, ainda, que ambos os artigos não possuem base científica, como se base científica fosse condição necessária para se escrever artigos opinativos.

O fato é que os artigos, principalmente o publicado pela Veja, escancaram verdades inconvenientes para classe docente, mas também argumentos falaciosos e desrespeitosos, principalmente quando argumentam com uma matemática totalmente esdrúxula, que os professores trabalham em média por apenas dezenove anos antes de se aposentarem.

Porém, em suas moções de repúdio, os docentes em reação inflamada, também se valeram de argumentos falaciosos, desgastados e retóricos que nada acrescentam ao debate. Vamos a eles:

  • A mídia golpista quer o fim do ensino superior público, gratuito e de qualidade

Os doutores e mestres deveriam reler os artigos com atenção, pois parecem ter sérios problemas de interpretação de texto. Em nenhum momento os artigos defendem a privatização do ensino superior público, muito pelo contrário: o editorial do Globo defende que há injustiça social e entende que os ricos devam pagar pelo ensino, permitindo que o pobre tenha acesso ao ensino superior público gratuito.

  • “Enquanto defendem a privatização do Ensino superior no Brasil, a Alemanha dá mais um 7 a 1 e irá tornar todas as universidades gratuitas”

Como já dizia Adam Smith, não há almoço grátis. Independentemente de entrar no mérito de se manter ou não a universalização do ensino superior gratuito, fato é que a Alemanha possui uma economia muito mais desenvolvida, diversificada e menos corrupta que a brasileira e tem condições de pagar esta conta. O que não se discute, entretanto, é como as universidades alemãs vão gerenciar esta gratuidade.

Na Europa e nos Estados Unidos é muito comum ex-alunos fazerem grandes doações em dinheiros às universidades que os formaram. Faz parte da cultura destes povos. Em terra brasilis, além de não ser hábito, quem quiser fazer uma doação desse tipo vai esbarrar na burocracia, impostos e nem terá certeza se o dinheiro chegará realmente até à universidade. Além disso, a maioria das universidades alemãs possui grandes fundos de reserva, aplicações financeiras, patentes e parcerias com o setor produtivo, coisas demonizadas pelos acadêmicos brasileiros, mas que permitem que as universidades alemãs se deem ao luxo de serem totalmente gratuitas. É uma nação com outro grau de maturidade. Enquanto isso, os acadêmicos brasileiros continuam achando o mercado “malvadão“ e explorador do trabalhador.

  • “Os professores brasileiros ganham muito mal”

 Essa foi a principal reação contra o articulista da Veja. Ele foi infeliz ao misturar os docentes do ensino superior – estes realmente ganham bem, com os docentes do ensino básico, que na média ganham menos que seus pares no exterior. Os docentes do ensino superior, com o vitimismo de sempre, argumentam que não são bem remunerados. Desta vez, os números estão contra os doutores e mestres. Um estudo conduzido pela Inside Higher Education em 2012 compara o salário de professores universitários em diversos países, normalizado por paridade de poder de compra em dólar. O estudo mostra que os docentes brasileiros são os décimos oitavos mais bem pagos e possuem remuneração próxima a dos docentes japoneses e está no mesmo grupo de França, Japão e Turquia, sendo mais bem pagos que os russos.

Segundo o estudo, um docente brasileiro em início de carreira ganha US$ 1858,00 (R$6019,92) por mês, valendo lembrar que o salário inicial nas universidades federais é de R$ 8639,50 (US$ 2666,51, Japão US$ 2897). O docente brasileiro em final de carreira ganha US$ 4550 (R$14742,00), porém o salário mensal de um professor Titular nas universidades federais é de R$ 17057,54 (US$ 5264,73), bem mais que os US$ 4604 e US$ 4775 que recebem os seus pares japoneses e franceses.

Com esse dado em mãos, será que agora terão que dizer que os professores universitários também são desvalorizados no Japão e na França?

  • “Professor é desvalorizado e deveria ser a profissão mais remunerada de todas, visto que forma todas as outras”

Os doutores e mestres deveriam saber que a profissão mais bem paga do mundo não é a de professor, médico, advogado, economista, agrônomo, mas sim a profissão de engenheiro.

É na engenharia que estão os maiores salários do mundo. Comparar média salarial de profissões diferentes é como comparar alhos com bugalhos. Além de ser intelectualmente desonesto, é injusto.

A comparação deve ser feita entre os salários pagos para o mesmo tipo de trabalho.

Além disso, em nenhum país do mundo a academia é o lugar mais atraente em termos de salário. Fora da academia existem melhores oportunidades, é uma disparidade, mas esta é a realidade. Em países onde a meritocracia impera, essa disparidade é compensada por condições de trabalho, bônus e remunerações adicionais que ajudam a recrutar as melhores cabeças para a academia. Isto está longe de acontecer neste país, onde meritocracia é um palavrão e a isonomia salarial dá a mesma remuneração a um profissional competente e a outro totalmente incompetente.

No final das contas, o que se viu foi um show de vitimismo por parte dos sindicatos e docentes, o que não leva a nada.

Não se viu a mesma reação quando ao apagar de luzes de seu governo, Dilma cortou 75% das verbas da pós-graduação brasileira e estabeleceu cotas raciais na pós-graduação, ferindo a autonomia dos programas de pós-graduação e da CAPES.

Enquanto os sindicatos se preocupam em publicar notas de repúdio que ninguém lê, não temos uma única universidade entre as melhores do mundo.