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A falácia da interinidade

por Romildo Perez

 

O início do governo Michel Temer é marcado pela frouxidão: passados quase dois meses de mandato, pouco ou quase nada se viu de ações concretas para estancar a hemorragia deixada por Dilma Rousseff e seu desastroso mandato.

 

Pelo contrário, o primeiro bimestre de Temer se caracterizou pela repetição de cenas de um folhetim bem conhecido no cenário político nacional. Houve loteamento de cargos de primeiro e segundo escalão para atender pleitos suspeitos de potenciais aliados (alô, alô, Picciani, alô, alô, Kassab). Personagens bem próximos de seu círculo de confiança se envolveram em escândalos de corrupção (Romero Jucá, alguém?). Aumentos fora de hora foram concedidos ao funcionalismo público e manobras de bastidores foram (e continuam sendo) adotadas para frear o ímpeto dos movimentos oficiais e populares contra a corrupção.

 

Em resumo: o reverso da moeda do que muitos esperavam. Que o digam os mais de 50 milhões de brasileiros que votaram em Michel (sim, sim, isso foi uma piada).

 

Há quem atribua essa frouxidão à interinidade de seu governo, sob o argumento de que Temer estaria pisando em ovos até que decidido o mérito do pedido de impeachment de Dilma Rousseff.

 

Dizem que uma vez extirpado o caráter provisório de seu mandato, Michel Temer assumirá uma postura mais ativa, mudando radicalmente o curso do presidencialismo de coalizão, do crescente aparelhamento estatal e do inchaço da máquina pública que marcaram todos os governos desde a queda do regime militar, culminando na situação caótica vivida particularmente a partir do final do segundo mandato de Lula e que culminou no final trágico da Presidenta Presidente.

 

Aguardem agosto chegar que ai o negócio engrena, é o que falam.

 

Sinceramente, isso parece ser uma bela de uma bravata. Conversinha para boi dormir, como diriam no meu interior de São Paulo.

 

A verdade é que Temer é PMDB. E seu governo se manterá fiel ao que é o PMDB: fisiologista, oportunista e apaziguador.

 

Não haverá mobilização nacional, tampouco medidas relevantes em qualquer área. A busca será por estabilidade em meio à crise: fazer o barco parar de afundar, mas mantê-lo inundado de água e ratos por todos os lados. A quem ver de fora, ao menos dará um certo ar de tranquilidade. O objetivo disso? Entregar o país nas eleições de 2018 para aquele que o PMDB vier a apoiar, retomando sua atuação de bastidores, mantendo o Estado a servir seus interesses como sempre foi. PMDB é partido que vive nas sombras e está louco para voltar ao seu habitat.

 

Não é que eu esteja decepcionado, até porque nunca tive muita expectativa com um governo encabeçado pelo principal sustentador de 13 anos de Lulopetismo. Eu não votei no Temer.

 

Mas fato é que alguma expectativa de mudança era inevitável. Depois do #tchauquerida havia um fio de esperança de que as coisas poderiam se alterar. E vejam que eu nem esperava tanto. Só três coisinhas básicas: 1) controle de gastos públicos, com corte de despesas e melhoria da eficiência na alocação de recursos; 2) limpeza geral no funcionalismo, com foco em cargos comissionados e adoção da primazia de indicações técnicas para funções estratégicas, cessando a política de loteamento de cargos; 3) apoio às medidas anticorrupção.

 

Pelo jeito, nem isso vamos ter.

 

Como diria Giuseppe Di Lampedusa, às vezes tudo deve mudar para que tudo continue exatamente como está.

 

Quo vadis, Brasil?