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Uma vela no escuro do Carandiru Cultural

Só leva 30 anos pra arrumar (parte 3)

Caro leitor, esta é a parte 3 do artigo Só leva 30 anos pra arrumar que pode ser lida de maneira independente ou na sequência das partes 1: Reformas de Tolo e o Fundo do Poço e 2: Adeus Liberdade. Aqui concluirei este breve ensaio sobre a luta cultural que têm pela frente aqueles que querem um Brasil melhor no futuro.

Nesta terceira parto, falarei em tom mais pessoal, tomando por base minha experiência como detento do Carandiru Cultural que virou o Brasil (crédito a Martim Vasques da Cunha pela expressão). O cenário é tenebroso, mas existe uma tênue esperança, uma vela trêmula na caverna que cabe a nós proteger.

Voltando ao campo de batalha: a cultura.

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Vivemos num ambiente de atraso cultural crônico. Atesto isso depois de ter passado anos na USP, numa faculdade de humanas, bem perto do ventre da besta esquerdista

O debate cultural e intelectual é paupérrimo e anacrônico. Dizer que existe um debate chega a ser um exagero. As discussões são basicamente campeonatos de esquerdismo e confirmações mutuas. Analfabetos funcionais politizados defendem ideias, posições e políticas públicas que já foram testadas ad nauseam nos quatro cantos do mundo sem um exemplo sequer de sucesso. É o império da ideologia sobre a realidade. Se é carregado de “boas intenções”, deve ser verdadeiro.

Pegando carona no que disse o grande Thomas Sowell:

“Os esquerdistas acreditam que se você não concorda com as soluções políticas específicas deles, você não se importa com as pessoas que eles dizem que pretendem ajudar”.

Deste modo, a esquerda detém o monopólio das virtudes e você é simplesmente um sem coração que não pode jamais estar certo. Não acredita que o caminho para tirar os pobres da pobreza seja o assistencialismo estatal? Então você só pode ser um elitista que está se lixando para os pobres. É literalmente assim.

Neste ambiente de simplismo pueril e retórica hipnótica barata, nossas universidades produzem futuros formadores de opinião e professores que não estudaram nada (incluo-me aqui, não na categoria de formador de opinião ou professor, mas na dos que não estudaram nada) e não procuraram estudar, observar o mundo e entender a realidade ao seu redor depois de obtido o diploma acadêmico (coisa que comecei a tentar fazer de uns anos pra cá).

O lado mais preocupante, deprimente e cavernoso do colapso do PT é ver que muitos dos meus ex-colegas de faculdade, bem como formadores de opinião na mídia – a intelligentsia de modo geral – não reviram suas posições. Sequer fizeram uma reflexão. Não lhes passa pela cabeça atribuir a origem da falência política, econômica, social e moral que vivemos no país à sua ideologia canhestra; ao pensamento relativista; à ditadura do politicamente correto; ao intervencionismo Estatal; à crença no Estado redentor como via de salvação nacional; à negação da realidade, à chantagem emocional da “Cartilha Sentimental da Esquerda”, muito bem apelidada por Paulo Francis.

O PT pode até ser extinto, mas o ambiente cultural de hegemonia esquerdista no qual brotou, encontrou solo fértil para criar raízes, florescer e disseminar sementes, este continua muito bem obrigado.

Prova disso são nossos “intelectuais” seguirem adiante como se nada, além de um desvio de caráter por parte da cúpula do PT, que fraquejou e “corrompeu-se perante o grande capital”, tivesse acontecido. Alheios aos fatos, não perderam a pose de pavões armados, como se a realidade concreta não tivesse imposto um nocaute fulminante às suas ideias desencontradas.

Ao invés de reconhecer o fracasso e a inviabilidade do modelo esquerdista e estatista, nossa intelligentsia recorre à surrada ladainha da “traição dos ideais”, que vêm sendo usada desde a revolução bolchevique para reciclar o que já estava podre.

Quem nunca ouviu que “Você não pode dizer que o comunismo ou o socialismo não funcionam porque eles nunca foram implementados de verdade.”? Onde esta afirmação se encontra no espectro que vai da estupidez completa à má fé absoluta, varia de caso a caso e pessoa para pessoa. Mas não foge à regra.

Percebendo o colapso do projeto petista, nossa classe “intelectual” resolveu dobrar a aposta no que já deu errado. Passando de defensores e eleitores do PT a propagandistas de versões ainda mais virulentas do esquerdismo bolivariano: a REDE e o PSOL. Legendas caricatas e fora de seu tempo que não passam de franquias do PT posicionadas à sua esquerda. Convido o leitor a ler os estatutos desses partidos. Para meio entendedor, um quarto de palavra basta. Ambos são cartilhas para a venezuelização do Brasil.

A vasta maioria da nossa classe “intelectual”, nem sequer têm conhecimento da agenda vitimista oriunda do Marxismo Cultural, que gerou a cultura do relativismo moral e do politicamente correto. Não compreendem a falácia dentro da qual todos os seus pilares de raciocínio estão apoiados: a ideia de que o indivíduo é apenas um produto da sociedade e vítima dela. Tornando nula e irrelevante, dentro desta visão de mundo, a possibilidade de liberdade e ação individual.

Tudo se dá através e em prol de um coletivo abstrato, em detrimento do indivíduo real, a pessoa de carne e osso. Eu e você.

É só levar este raciocínio adiante, para chegar nas aberrações lógicas que viraram lugar comum, como o bandido passando a ser a vítima da sociedade ao invés do contrário. Esta é a narrativa – usando um termo que a esquerda adora, já que tudo é uma questão de narrativa, tudo é relativo e a verdade simplesmente não existe – praticamente hegemônica no atual cenário cultural brasileiro. Perde-se o conceito de verdadeiro e falso. De bom e ruim. De altas e baixas manifestações culturais. Não há mais distinção entre o edificante e o vulgar. Beethoven e MC Guimê. Aristóteles e Marilena Chauí. Tudo é válido num caldo de confusões onde apenas o relativismo é absoluto.

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Pense no Caetano Veloso formulando uma frase. É mais ou menos por aí. Ou não.

Quando palavras carregadas de sentimentos e frases de apelo sentimental barato, vazias de significado real, passam a valer mais do que a realidade concreta que está perante nossos olhos, a sociedade perde por completo o poder de se analisar, compreender e propor soluções minimamente sensatas.

Como profetizou Nelson Rodrigues: “O século XX será conhecido como o século da ascensão do idiota.” Frente à presença tão monolítica da narrativa da esquerda na nossa cultura atual, não há como escapar de outra máxima Rodriguiana, onde “toda unanimidade é burra”. Assim, chegamos ao ambiente cultural do “Imbecil Coletivo” descrito e dissecado por Olavo de Carvalho.

Indo além, o militante idiota que antes era apenas útil parece ter assumido as rédeas do processo. Lanço aqui a hipótese, que merece investigação à parte, de que o apocalipse venezuelano é um possível efeito desta causa. Os idiotas úteis assumiram o comando e a ideologia passou do Ideenkleid (vestido de ideias) de Marx – que justificava as ações estratégias e táticas para o avanço da revolução comunista – para a receita dogmática infalível (100% falha) de construção do paraíso (inferno) terreno. Voltando ao Brasil, viramos de fato – e o governo Dilma foi a apoteose disso – “o asilo de lunáticos onde os pacientes assumiram o controle” da jocosa descrição de Paulo Francis. Apesar da hegemonia cultural com que contava, a cúpula Dilmista conseguiu (num show de amadorismo político não visto desde Collor) implodir, momentaneamente que seja , o seu projeto de poder político. No campo cultural, seu poder segue firme e sem muitos sobressaltos.

O cenário é melancólico e desesperador. O Brasil é um paciente em condição grave mas ainda não está em estado terminal. Há uma luz no fim do túnel.

Uma chama na prisão intelectual

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Há cerca de 7 a 5 anos atrás, a hegemonia cultural esquerdista era total. Mal encontrávamos no Brasil livros de pensadores conservadores e liberais (no sentido clássico) para fazer um contraponto à enxurrada de publicações de esquerda que tomaram conta das prateleiras de nossas livrarias e bibliotecas há mais de 4 décadas. Na Inglaterra ou Estados Unidos, por exemplo, também há uma maioria de autores esquerdistas nas estantes das livrarias, porém, logo ao lado encontra-se o contra-argumento conservador e liberal.

No Brasil isto praticamente não existia até recentemente. Agora, observamos que o cenário começou a mudar. Autores fundamentais do pensamento conservador contemporâneo como Roger Scruton e Theodore Dalrymple foram traduzidos para o português. Novos autores brasileiros têm surgido, estreado e ganhado algum espaço.

Entretanto, no âmbito mais abrangente da cultura de massas, a presença do contra-argumento conservador e liberal ainda é insipiente. Há alguns colunistas aqui e ali mas são poucos e suas vozes são tão dissonantes que ou são ignorados ou, se mais populares, perseguidos e difamados, via de regra com o insulto onipresente e vazio: “fascista!”. Gritado por bocas cheias de baba raivosa.

A mesma hegemonia esquerdista que encontramos na mídia ainda não foi nem de longe desafiada nas universidades. Aqui a batalha nem começou. Vejo por exemplo, o professor da USP e colunista da folha Vladimir Safatle. Ao ler o que escreve, fico sempre na dúvida se trata-se simplesmente de um indivíduo pouco inteligente ou se é um caso de desonestidade intelectual compulsiva. Os argumentos são tão falaciosos e precários que se é assustador alguém deste nível ser professor universitário, é desesperador que um acadêmico tão limitado como Safatle seja apresentado como figura de proa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

O pequeno espaço que um pensamento conservador e liberal conquistou no mercado editorial e nas mídias digitais e redes sociais são uma vela trêmula tentando iluminar a caverna húmida da cultura brasileira.

Leitor, cabe a nós (eu e você, afinal plural majestático aludindo a um coletivo abstrato é coisa de esquerdista) ter paciência e perseverança para preservar essa chama e trabalhar para que ela se expanda. Podemos fazer isso apoiando financeiramente e pessoalmente institutos, publicações, indivíduos, estudiosos e iniciativas conservadoras e liberais, para que tragam uma nova luz a nossas escolas, universidades e imprensa em geral. Procurando estudar o cenário ao nosso redor para entendermos melhor o desafio. Deixando de consumir veículos de mídia partidários e sem o compromisso com a verdade. Identificar agentes de desinformação e propagandistas entre jornalistas e colunistas e defenestrá-los. Fiscalizar e lutar contra a doutrinação em sala de aula.

Enfim, há muitos fronts na luta cultural. Escolha um e arregace as mangas. Não para atingirmos um status hegemônico. Isso é coisa de esquerdista, mas para estabelecer um debate verdadeiro de pontos e contrapontos, através de livros, teses, artigos de jornais e manifestações culturais que se contrapõe, ressuscitando o real debate de ideias no Brasil e tirando a cultura nacional da UTI de hospital público onde se encontra.

A esquerda trabalhou incessantemente por décadas no campo cultural até nos trazer ao fundo do poço, e está mais que claro que continuará na sua cruzada infame. Cabe a nós ter a determinação de lutar para colocar a cultura brasileira na contramão do atraso. A trilha é árdua e longa, mas daqui há uns 30 anos, quem sabe a gente chega lá.