Sign up with your email address to be the first to know about new products, VIP offers, blog features & more.

Adeus Liberdade

Só leva 30 anos pra arrumar (parte 2)

Caro leitor, esta é a parte 2 do artigo Só leva 30 anos pra arrumar que pode ser lida de maneira independente ou na sequência da parte 1: Reformas de Tolo e o Fundo do Poço. Aqui tratarei de mais um aspecto da luta cultural: de como a esquerda fragmenta-se nesta luta por meio das frentes mais diversas, ao mesmo tempo que todas convergem para um aumento da intervenção estatal em todos os aspectos da vida social. Também pretendo mostrar algumas das  consequências nefastas da promoção do Estado à condição de guia e árbitro de todas as questões morais, religiosas, sexuais e comportamentais de um povo.

Como a esquerda luta a batalha cultural e por que ganhou tanto espaço?

A velocidade e os meios pelos quais a esquerda opera variam tremendamente, chagando a parecer completamente contraditórios, como a ilusão alimentada – principalmente pela mídia e meios universitários – desde os anos Collor de que existiria um real antagonismo de propostas entre PT e PSDB.

Com a palavra, FHC:

“Nossas diferenças com o PT são muito mais em relação à disputa de poder do que sobre ideologia”.

LULA+E+FHC

Se isso soa como algo de outro planeta, pare de ler este artigo e vá estudar. Pode começar por aqui.

No campo da política, com a estratégia das tesouras, várias frentes levam ao mesmo fim por caminhos distintos. PSDB e PT são ambos de esquerda e socialistas. O PSDB segue a linha Fabiana, sem pressa, os lobos em pele de cordeiro vão lentamente aumentando o poder e influência do estado e este vai fagocitando e incorporando a sociedade lenta e progressivamente. A premissa do fabianismo remonta à celebre afirmação de Hayek:

“A liberdade não se perde de uma vez, mas em fatias, como se corta um salame.”

Já o PT e suas franjas (PSOL, REDE, PCdoB e outros nanicos) representam a via mais gramsciana, querendo transformações mais rápidas e radicais. Através da ocupação de espaços e aparelhamento agressivo do estado. Subjugando as instituições ao partido e transformando o Estado em uma reflexo dele. O PT propôs-se a eternizar-se no poder (ditadura) através da democracia.

O primeiro passo da estratégia gramsciana não é atingir e hegemonia política. Isto é a cereja do bolo. O primeiro passo é a hegemonia cultural. A macro estratégia mundial da esquerda para atingir essa hegemonia pode ser observada em todas as partes, nos mais diferentes níveis e escalas. A homogeneidade da pauta aponta para uma fonte principal, o dito marxismo cultural da Escola de Frankfurt. Resumindo: a destruição da sociedade ocidental, sua cultura, valores, estrutura familiar e religião (premissa da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt) para reerguer dos seus escombros uma nova sociedade socialista.

No caso da chamada esquerda progressista nos EUA com sua proposta de socialismo democrático – ambos eufemismos modernetes para recauchutar o velho comunismo – e na sua versão bolivariana latino americana, a agenda do Marxismo Cultural é posta em prática através da ação dos grupos mais distintos e não raro antagônicos entre só. Em comum, só têm o ataque à sociedade ocidental: Ambientalismo, lobby desarmamentista, legalização das drogas, justiça social, feminismo, abortismo, ideologia de gênero, militância LGBT, jihadismo, militâncias raciais e afins. Todas bandeiras que visam fragmentar a sociedade, criando inúmeros conflitos internos e minorias aparentemente frágeis e desprotegidas. A partir daí, só restaria à sociedade colocar o Estado como mediador de todas as questões sociais, econômicas, religiosas, raciais, comportamentais e sexuais.

crybullies_ben_garrison

Nesta visão de mundo, toda sorte de minorias reais e imaginárias seriam vítimas indefesas do flagelo da sociedade “machista, cristã, branca, elitista, burguesa e defensora da família e da propriedade”, ante o abuso da qual estão completamente indefesas. Faz se então necessária a onipresença do Estado para garantir sua proteção e direitos. Ao mesmo tempo este Estado irá fragmentar ainda mais a sociedade com suas leis e políticas divisionistas e sectárias, criando abismos cada vez mais profundos que serão preenchidos pelos tentáculos de um Leviatã metastático. Tudo por meio do Estado, nada fora do Estado, fazendo inveja a Mussolini.

Desta seara de embustes intelectuais da esquerda, travestidos com o abrangente manto do “multiculturalismo”, brota um ambiente de absoluta intolerância onde reina a ditadura do politicamente correto. Existe apenas a aceitação da diversidade sexual e racial. A mais importante, a diversidade intelectual, é perseguida e rechaçada. Qualquer manifestação da mesma é imediatamente taxada de burrice ou crueldade nos EUA e de “fascismo” no Brasil. Com a criação do rótulo “discurso do ódio” (hate speech), usa-se a ofendibilidade programada de grupos minoritários como pretexto para a implementação da censura. E quase tudo passa a ser proibido, a não ser que interesse à agenda momentânea da esquerda. Se não interessar mais, será taxado de “discurso de ódio”.

É evidente que todos esses movimentos e frentes são única e exclusivamente políticos. Não visam defender nenhuma minoria, mas usar suas reivindicações para forçar as agendas da esquerda progressista sobre a sociedade. Milo Yiannopoulos, Catlin Jenner, Joaquim Barbosa, a Deputada Tia Eron, todos sofreram abusos por sua orientação sexual ou cor de pele sem que a esquerda ou seus apaniguados grupos de defesas das minorias dessem um pio. Essa omissão passa a ser criminosa quando tratamos não de ofensas verbais a indivíduos, mas da ocultação de crimes muito mais graves e em larga escala, como nos casos dos estupros praticados por refugiados na Alemanha, da perseguição a cristãos no oriente médio e tantos outros. Nada disso foi denunciado pela esquerda, pela mainstream media ou nenhum grupo que diz, da boca pra fora, defender estas minorias que, nesses casos, estão sendo verdadeiramente perseguidas, agredidas e até exterminadas. Mais uma vez observa-se o duplo padrão moral esquerdista e um cinismo diabólico.

13423758_10208149233600023_960778507301998140_nExemplo mais emblemático não existe do que o silêncio do movimento feminista sobre a condição da mulher no mundo islâmico – na Arábia Saudita, sequer podem dirigir um carro – e a abjeta omissão da militância LGBT à execução de homossexuais – jogados do alto de prédios pelo Estado Islâmico e enforcados em praça pública no Irã. (Em 10 paises muçulmanos, a pena de morte é prevista para o homossexualismo).

Todos estes grupos, apoiados enquanto forem uteis para solapar a sociedade ocidental – como preconizou a Escola de Frankfurt – são provas concretas de que nada se materializa na realidade sem antes estar presente na cultura. Tudo que vemos ao nosso redor já podia ser lido há décadas em Horkheimer, Marcuse et caterva. Por isto a minha insistência repetitiva, desculpe-me o leitor, de que é vital compreender que a luta é cultural.

Intervencionismo econômico é fichinha.

Politicamente-correto

Muito do foco sobre a discussão do papel do estado na sociedade, acaba se restringindo à sua intervenção ou não na economia. A esquerda com sua tradição marxista – que vê a economia e a luta de classes como forças motrizes da história – e também os anarcocapitalistas libertários que acreditam no livre mercado como a solução de todos os problemas da humanidade acabam por restringir o debate à economia, ao invés de lidar com o debate cultural, infinitamente mais importante.

Isto não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Vide a atual questão do referendo do Brexit no Reino Unido, onde noventa por cento do debate fica restrito aos benefícios ou prejuízos econômicos da eventual saída ou não da União Européia, quando a questão fundamental é cultural. O que os britânicos estão decidindo, na verdade, é se querem ou não abdicar de sua soberania nacional para fazer parte de um projeto de estado transnacional agigantado, regido pela burocracia de Bruxelas, onde as vidas de mais de 500 milhões de europeus são impactadas por leis criadas por burocratas que não são eleitos pro ninguém, mas contratados por outros burocratas. Cito o Brexit aqui apenas como exemplo ilustrativo, o assunto é extenso e merece ser abordado em outro artigo.

Voltando ao Brasil e um pouco no tempo, tratemos das privatizações feitas pelos governos Itamar Franco e FHC. Ao contrário do que a mídia esquerdista não cansa de propagandear, estas privatizações nada tiveram a ver com o caráter da agenda desses governos (que de liberais não tinham nada) ou qualquer sopro de liberalismo (ou neoliberalismo) na cultura nacional. Foram medidas pragmáticas para conter o sangramento hemorrágico da máquina estatal, que ameaçava a sustentabilidade destes mesmos governos. Só isso.

Os esquerdistas embolorados que acusam o governo FHC de neoliberal entendem menos ainda a natureza daquela administração, pois ali foram gestados os programas assistencialistas que depois seriam aglutinados no famigerado Bolsa Família. Também foi o governo FHC o grande patrono inicial do Movimento Sem Terra e de outras diversas ONGs para-estatais, que sob o pretexto de defender minorias ou causas, acabam todas investidas em promover diferentes capítulos da grande agenda esquerdista, fazendo lobby por leis e políticas que acabam por levar as questões morais para o âmbito jurídico. Leia-se: meter leis garantidas pelo estado no meio de todas as interações e escolhas sociais.

128713_600Deste modo, as privatizações não diminuíram o alcance do estado. Muito pelo contrário, representaram o corte de apêndices ineficientes para nascerem em seu lugar novos tentáculos de alcance infinitamente maior. Muito além da perspectiva de controle econômico e da indústria de base que gerou as velhas empresas estatais de infraestrutura da Era Vargas e dos militares, o governo FHC plantou e regou as sementes de um intervencionismo estatal muito mais profundo, abrangente e nocivo. O Estado recua na esfera econômica para meter as quatro patas no que até então eram papeis da comunidade e questões de foro intimo do indivíduo.

“As consequências da atuação do governo transbordam os limites da política e da economia. Influem no comportamento, nos hábitos nos costumes. Gradualmente operam uma engenharia social dissimulada, indolor e extremamente eficaz. As pessoas passam a agir e pensar segundo um código ideológico. Eis a glória do intervencionismo: controlar a sociedade sem precisar de um órgão do governo responsável por persuadir ou coagir os indivíduos a se comportar de acordo com o interesse do governo de turno.”

Como muito bem colocou Bruno Garschagen.

O apocalipse Venezuelano é o estado avançado desta doença, em que a inversão de papeis é total e a sociedade é subjugada pelo estado, passando a trabalhar para servi-lo, ao invés do contrário (Lembrando que trabalhamos 5 meses por ano só para pagar impostos. Já temos quase meio caminho andado rumo à servidão total). Claro que do apocalipse bolivariano de Chávez e Maduro não se reerguerá o paraíso socialista. A vocação marxista sempre foi destrutiva, jamais construtiva.

O debate de reformas econômicas, institucionais e constitucionais no qual gastam todos os seus cartuchos muitos dos nossos liberais, são causas perdidas se não forem calçadas numa reforma cultural mais profunda e duradoura.

De volta a Garschagen

“só uma mudança institucional não adianta; só uma reforma cultural não adianta. Precisamos de ambas: a transformação na cultura permitirá e preservará a mudança constitucional, e contribuirá na formação de uma sociedade independente e vigilante dentro da qual emergirão as elites políticas preocupadas em preservar esses elementos fundamentais, que, por sua vez, serão respeitados e conservados pelas instituições.”

Vale lembrar, que se o governo FHC promoveu seu intervencionismo fabiano de mansinho, ele também não encontrou resistência alguma. O caldo cultural da época – em essência, o mesmo de hoje – impregnado de esquerdismo gramsciano, visão marxista de mundo e desejo de autodestruição frankfurtiano acaba por gerar uma mentalidade intervencionista que transcende absolutamente o dirigismo estatal na economia que tanto criticam os liberais. Muito além dos sonhos (ou pesadelos) mais fantasiosos da escola falida do desenvolvimentismo econômico de Bresser Pereiras, Mercadantes, Luciano Coutinhos et caterva, a ditadura do politicamente correto abre alas para levar o Estado às esferas religiosas, culturais, sexuais e comportamentais da sociedade. O Estado chegaria em última instância ao foro íntimo do indivíduo, influenciando sua maneira de agir e pensar, tolhendo assim a mais essencial, fundamental e sacrossanta das liberdades, a liberdade interior.

Parte 3: Vela no escuro do Carandiru Cultural.