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Quero ser apparatchik

Por Chico Beca

Jovens, peço a gentileza de desligarem o youtube por um minuto. Deixem o whatsapp de lado: eu juro que a pornografia não vai desaparecer, nem a Angelina Jolie vai mandar um alô. Larguem, por algumas horas, de ver Crepúsculo ou Harry Potter pela milésima vez. Suspendam o Toddynho.

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Façam um favor pro tio aqui: assistam a “Quero ser John Malkovich” (“Being John Malkovich”, 1999), um dos filmes mais impagáveis dos anos 1990. Se hoje sou um burocrata meio calvo e cansado, naquela época eu ainda achava que ainda dava tempo de virar rockstar ou um matemático brilhante – quem sabe os dois?

Mas, voltando ao filme: em um prédio meia-boca de uma Nova York meio decadente, uma portinha no andar 7½ (sim, garotos, sete e meio; aprendam!) leva o visitante à cabeça do ator John Malkovich, o que permite ver a vida pelos olhos do ator. A partir disso, a história se desenvolve e, sem querer dar “spoiler”, só vou dizer que tem sexo, marionetes e Cameron Diaz (meio embarangada, é verdade). Good enough for me.

Inspirado nessa fábula moderna, resolvi fazer um experimento. Pensei na lição de Sun Tzu: “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas”. Por alguns instantes, eu iria entrar na cabeça de um petista. Não um petista mau, desses que carregam dinheiro na cueca ou que pedem favores ao Bessias. Um petista bacana, gente como a gente, que aperta 13 e confirma com força e com fé.

Fui à rodoviária do Plano Piloto aqui de Brasília (não confundir com a antiga rodoferroviária). Coloquei um boné de sem-terra, degustei um sanduíche de mortadela e uma tubaína. Separei, no bolso da camisa, uma nota de 20 e uma de 10 reais, meio amarrotadas. No iPhone emprestado do amigo, coloquei uma canção de protesto do xará Chico – o Buarque (sim, meu plano impunha afetar intimidade com sambistas progressistas).

Acendi um incenso com um cheiro meio suspeito – o amigo não quis me emprestar erva, que, acredito, vale para ele mais do que o tal iPhone. Não tiro sua razão, mesmo porque prefiro as geringonças da Samsung.

Instalado o clima, pensei nos pobres deste Brasilzão e em como eu adoraria tê-los a todos em meu confortável apartamento na Asa Sul para uma conversa de igual para igual. Eu explicaria, de modo simples e didático, as injustiças do nosso capitalismo tardio e as benesses da redistribuição de renda por meio do estado-empresário.

Falaríamos mal do Cunha e do Bolsonaro, que mereceu levar aquela cusparada do Jean Wyllys (que, para mim, evoca a já lendária Rural Willys do meu avô). Omitiríamos o Renan, em respeito à sua luta heroica contra a elite branca e contra a calvície.

Abraçaríamos simbolicamente a Petrobrás e outros bastiões do nacional-desenvolvimentismo e pediríamos a volta da Vale e da Telesp ao seio do estado. Derramaríamos uma lágrima pelo fim do Império X e pelos “ratings” de audiência da TV Brasil.

Algum gaiato queimaria uma bandeira ianque. Eu, compenetrado em minha liderança, não ajudaria a apagá-la a pontapés com os demais, mas ficaria gostosamente sorrindo daquele ato de descolonização cultural.

Terminaríamos com um grito de “não vai ter golpe”, brindando com a cachaça artesanal que eu comprei para a ocasião.

Com aqueles sorrisos banguelas e agradecidos na minha imaginação, eu me senti uma pessoa muito, mas muito boa mesmo. Deu uma sensação de contato com o sublime, um quentinho no meu recém-adquirido coração valente, que antes tinha uma pedra em seu lugar. Uma certeza de que outro mundo é possível e de que tenho não só o direito, mas o dever, de liderar o Brasil e os brasileiros rumo a essa Canaã tupiniquim.

Ah, se o PT ficasse no governo pelo menos uns 13 anos seguidos! Ah, se nossa capital fosse uma cidade socialistamente planejada!

Senti um cutucão no braço e acordei do meu transe. Era um senhor perguntando as horas, do jeito meio sem-jeito aqui do Planalto: “quantas horas?”. Vi que eram 15h35 e ajudei mais um trabalhador – desta vez, um de verdade.

Eu já estava atrasado pro turno da tarde na repartição. Fui caminhando meio devagar, ruminando aquela experiência tão mágica, que fazia tudo parecer possível e ao alcance da minha vontade.

Chacoalhei a cabeça pra pensar direito, respirei fundo e expirei longamente. Antes de voltar, passei na lotérica e fiz uma fezinha na Mega Sena acumulada. Ao me despedir da mocinha simpática do caixa, sorri e disse, com minha melhor voz de tenor de bordel: “tchau, querida”!