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Um conto de dois Estados

Por Romildo Perez

Esta é mais uma história de garota conhece garoto.

Foi numa tarde chuvosa de verão. Ela tinha 18 e poucos anos e era cheia de sonhos. Já ele estava na casa dos 30, bem vestido, sorriso no rosto, astuto e sedutor. Entre um e outro olhar trocado, disse a ela que gostava da natureza e dos animais e que seu maior sonho era viver num mundo mais justo e solidário.

O arrebatamento a fulminou de vez, a ponto de não sobrar alternativa senão colocar aquilo tudo na conta do destino.

Ele prometeu de tudo. Em meio a juras de amor eterno, disse a ela que lhe daria o mundo e que não pouparia esforços para vê-la feliz. Casa, carro, viagens, roupas, as melhores faculdades, os filhos mais lindos do mundo. Não bastasse, oferecera a ela a fidelidade e a dedicação infinita de um marido apaixonado.

Nele ela via tudo aquilo que nunca encontrara em seu pai: a altivez e a segurança, a retidão moral, o senso de justiça, a solidariedade. Mais do que o homem, idealizava e idolatrava tudo que ele representava.

Casaram-se.

Pega de surpresa, mudou-se para uma casa que ele comprara antes do casamento, sem consultá-la. Vizinha à casa dos sogros. A decoração já estava lá, feita ao gosto dele. Ainda deslumbrada com todo o encanto, não ligou.

Afinal, que mal tinha ele planejar todos os passos da vida do casal? Ele era mais capaz, mais vivido, mais experiente. E era tudo pelo bem dela.

O carro novo foi ele que deu, no modelo que ele escolheu. Ficou chateada, mas relevou. Ora bolas, era de coração.

Inocente, ela pensou que as intervenções fossem parar na casa e no carro. Ledo engano. Daí para frente, ele passou a escolher as roupas, os perfumes, as viagens, as amigas. Aos poucos, lentamente, mudou o jeito dela falar, de pensar, de se portar.

O sonho de ser arquiteta foi por água abaixo, quando ele insistiu que ela ficasse em casa, cuidando dos filhos.

Nesse dia ela ousou reclamar e o viu reagir com rispidez. Pela primeira vez disse: “mas eu te dou tudo. Não te falta nada. Não reclame!”

E lentamente, ano a ano, mês a mês, o homem que afirmava confiar passou a desconfiar. Monitorava as ligações, os trajetos, com quem falava, com quem saia, o que lia, assistia, fazia.

Conselhos viraram ordens. O facultativo virou obrigatório. Se não era como ele queria, nada feito. Quase não conversavam mais, mas ela sentia a presença dele em todo canto. Na espreita, nas sombras, esperando sorrateiro o momento para tolhê-la.

Pouco a pouco, tudo que ela fora um dia ia sumindo, devagarzinho, feito miragem. Depois de tudo, mal se reconhecia no espelho.

Não se achava em nada, porque em mais nada se sentia. Não via mais a garota. Via apenas ele. Uma imagem torpe e distorcida dele.

Chorou.

Mas acabou ficando. Não tinha mais para onde ir. Não tinha forças, nem dinheiro, muito menos perspectiva.

Ano a ano, aquilo que sobrara: a casa, o carro, as roupas e as viagens, foram minguando. Depois de se esvair o sonho, se esvaia o dinheiro.

Ele tinha amantes. Não eram poucas e no fundo ela sabia muito bem que ele prometia e dava a elas o mesmo que a ela prometera. Sentiu pena. Para ela, era apenas uma dor a mais dum estrago já feito.

Esqueceu-se até seu nome. E um belo dia, num raro momento sozinha, sem vigilância, sem patrulhamento, alguém na rua lhe chamou, pelo primeiro nome. Aquele nome que há tanto tempo ela deixara de ouvir.

E ela o viu. Esvaída, esgotada, triste.

Ele não sorriu. Apenas lhe estendeu a mão. Perguntou-lhe de como se sentia e quais eram seus sonhos, quando na verdade nem ela sabia mais quais eram.

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Disse poder oferecer muito pouco ou quase nada, a não ser a promessa de que não os tolheria. Que a protegeria do mal, sempre que ele fosse injusto, e que com ela seria justo sempre que necessário fosse.

Nem carro, nem casa, nem nada. Só a certeza de que a deixaria ser ela mesma.

Liberdade e nada mais.

Assustada com tamanha novidade, fugiu. Desacostumara-se a ser tratada como gente.

Ao chegar em casa, olhou novamente o redor que a cercava, que a prendia. Não encontrou sentido em nada ali e, no fundo do peito, reencontrou-se com um sentimento há muito escondido: esperança.

Estava certa de que queria (e iria) encontrar novamente aquele homem. Aquele que nada lhe prometera. E que daquela vez, as coisas seriam diferentes.

E começou aí uma outra história de garota conhece garoto.

Um conto de dois estados.