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“Nunca antes na história desse país”. Será?

por Fayez Nachdenklich

 

Em reuniões sindicais e de esquerdistas, discursos inflamados a favor do governo petista são bastante comuns. Geralmente, para dar credibilidade “científica”, lança-se mão do critério de comparação entre governo petista o governo FHC. Não raro, acrescentam que, caso Aécio tivesse sido eleito, as coisas estariam bem piores.

 

Para a comparação entre governo FHC x governo PT, os sindicalistas costumam se basear em dados de inflação, crescimento, IDH, distribuição de renda, quantidade de gente pobre “andando de avião” (sic) e “virando doutor”.

 

Os argumentos são geralmente acompanhados de boa retórica e até de argumentum ad hominem, o que faz o interlocutor desistir da discussão.

 

Honestamente, estamos longe de ser fãs da gestão FHC, um esquerdista Fabiano de carteirinha, mas já que eles insistem no comparativo com os tucanos, não nos resta opção senão surfar nessa onda, até mesmo para desmistificar a tão afamada lorota de “nunca d’antes na história desse país”.

 

Em paralelo, quanto à ideia de que, caso Aécio tivesse sido eleito as coisas estariam bem piores, como não temos bola de cristal, achamos melhor nem entrar nesse mérito, dada a evidente perda de tempo.

 

Para o azar dos sindicalistas e esquerdistas, destruir a sua retórica e argumentos é bem fácil. Não podemos ir contra poderes paranormais, mas podemos sim analisar os dados econômicos e sociais disponíveis com rigor científico e expor toda a picaretagem intelectual dessa gente.

 

A picaretagem começa ao se comparar 8 anos de governo FHC com 12 anos de governo Lula e Dilma (2003-2014), pois o tempo de governo é diferente: pega-se 12 anos de governo de um partido para fins de comparação com 8 anos de governo de outro partido. Em termos estatísticos, poderíamos dizer que a amostragem (n) é diferente, o que representa uma falha no método.

 

Além disso, o mundo durante o governo FHC era de um jeito – houve as crises da Ásia e da Rússia, o governo FHC teve de arrumar o país, que recém saía de uma hiperinflação. O PT, por sua vez encontrou um céu de brigadeiro, a casa melhor organizada e surfou no boom das commodities. Houve a crise de 2008, mas como veremos, o PT não foi assim tão competente como prega.

 

Para sermos justos, precisamos analisar os dados com certo rigor científico. Poderíamos comparar os dados do Brasil com os dados de seus pares no BRICS, mas seríamos humilhados. Então vamos dar uma colher de chá aos defensores do lulopetismo e comparar os dados econômicos e sociais do Brasil com os de seus pares da América do Sul (Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru e Uruguai), utilizando os dados do governo Lula (2003-2010) e FHC (1995-2002).

 

  • O sindicalista diz: “A inflação durante o governo Lula foi bem menor do que durante o governo FHC”

 

Vamos utilizar dados do FMI (http://www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2015/01/weodata/weoselgr.aspx), que é normalizado para refletir as diferenças econômicas entre os países.

 

FHC Lula
Inflação acumulada 119,30% 40,10%
Maior inflação anual 66% em 1995 14,8% em 2003
Menor inflação anual 3,2% em 1998 3,5% em 2007
Média anual de inflação 14,91% 4,78%

 

Reforçamos que não são dados do IPCA, mas do FMI normalizados.

 

Os números brutos estão a favor do governo Lula, mas devemos considerar que o governo FHC enfrentou as crises da Ásia e da Rússia e ainda conseguiu a menor inflação anual de toda história do real (3,2%) em 1998.

 

Como dito anteriormente, o governo Lula pegou um mundo com grande viés de crescimento e commodities em alta.

 

Analisemos então os nossos pares na América do Sul.

 

1995-2002 (era FHC) 2003-2010 (Era Lula)
Inflação Média Anual (América do Sul) 12,75% 4,81%

 

Caros leitores, vejam que ambos os governos mantiveram a inflação dentro da média para a região e os dados mostram claramente que a inflação se comportou da mesma maneira em todos os países alcançados pela pesquisa. Competência do PT ou efeito da conjuntura internacional?

 

  • O sindicalista diz: “Durante o governo Lula o país cresceu e a renda aumentou bem mais que (sic) no governo FHC”

 

Um dos mantras preferidos da esquerda e cheio de picaretagem intelectual.

 

Mais uma vez, o que eles não dizem é que o Brasil apenas seguiu a tendência da região. Em bom português: esteve ruim quando todos estiveram ruins e esteve bem quando todos estiveram bem.

 

1995-2002 (era FHC) 1995-2002 (América do Sul) 2003-2010 (Era Lula) 2003-2010 (América do Sul)
Crescimento PIB per capita (ao ano/média, em dólares) – 0,89% – 1,14% 10,69% 7,69%

 

Os dados brutos em dólares certamente colocam o governo Lula em vantagem, mas não podemos nos esquecer que o real é uma moeda exótica, com maxidesvalorizações em 1999 e 2002 e apreciação entre 2004 e 2010, o que certamente distorce os dados.

 

Vamos então analisar os dados do PIB per capta nas moedas locais. Analisar os dados em moedas locais apaga as distorções causadas por variações cambiais bruscas.

 

1995-2002 (era FHC) 1995-2002 (América do Sul) 2003-2010 (Era Lula) 2003-2010 (América do Sul)
Crescimento PIB per capita (ao ano/média, em moeda local) 0,78% – 0,43% 2,11% 2,089%

 

Na era FHC, só Chile e Peru cresceram mais que o Brasil neste período.

 

Na era Lula, o Brasil perdeu em crescimento para Argentina, Chile, Colômbia, Equador e Peru.

 

Com Lula, o Brasil cresceu, é fato. Contudo, o governo Lula não teve competência para fazer o Brasil estar entre os 5 maiores crescimentos de PIB per capita no período 2003-2010, enquanto que durante seu governo, FHC entregou o terceiro maior crescimento da América do Sul.

 

Isso a esquerda e os sindicalistas não dizem.

 

  • O sindicalista diz: “O PT distribuiu renda e aumentou a inclusão social e o desenvolvimento humano”

 

Será mesmo? Para desmentir esta falácia, nada melhor do que dados do IDH.

 

No início do governo FHC, o Brasil ocupava a sexta colocação no IDH em comparação a seus pares; em 2002, já no final do governo FHC, o Brasil ocupava a quarta colocação no IDH em comparação a seus pares.

 

No final do governo Lula, o Brasil caiu para o quinto lugar em IDH em comparação a seus pares.

 

O IDH nominal brasileiro vem avançando de forma consistente desde 1990, mas o que os governos e os sindicalistas não dizem é que o Brasil não tem conseguido superar os seus pares e fica oscilando em posições vergonhosas de IDH.

 

Se o governo realmente tivesse promovido a inclusão social e o desenvolvimento que tanto diz ter feito, o Brasil seria um país bem melhor economicamente e socialmente.

 

O objetivo aqui não foi advogar a favor do governo FHC – cuja ideologia e princípios, esquerdistas, vale reiterar, afrontam diretamente a linha liberal preconizada pelo Bomsenso.org – , que também teve muitas falhas, mas mostrar como a esquerda, os governos e os sindicalistas são hábeis em manipular os dados para esconder uma verdade inconveniente: por incompetência e egoísmo, nossos governantes não conseguem fazer o nosso país crescer além da média. Pelo contrário, parece que há um contentamento geral em manter a mediocridade.

 

Somente isso já é suficiente para desmascarar a tão defendida “competência” do PT.

 

Ademais, a esquerda é hábil e intelectualmente desonesta o bastante para ficar comparando o governo petista com o governos anteriores, pois sabem que se compararem o governo petista com seus respectivos pares da América do Sul ou dos BRICS, perdem feio. Sabem que surfaram na onda das commodities e da economia mundial estável e em crescimento, mas não foram competentes o bastante para superar seus pares, restando apenas a comparação esdrúxula e desonesta com governos passados. Fazem isso de forma pseudointelectual, exibindo dados brutos sem o tratamento comparativo, estatístico e matemático adequado. Infelizmente, esse pessoal ainda consegue convencer muita gente.