Eu desisto, Capitão!

por Romildo Perez

Parece ter virado moda artistas e “intelectuais” se manifestarem publicamente em defesa do governo.

Na segunda-feira, Gregório Duvivier deu as caras na Folha de São Paulo e virou mote para um belo editorial de Niquilauda R. da Silva.

Ontem, foi a vez da mesma Folha de São Paulo abrir espaço a Wagner Moura, que não poupou palavras para sussurrar o mantra petista da vez: “impeachment é golpe!”.

Sinceramente, rebater os artigos desse pessoal chega quase a ser covardia. Uma covardia bem divertida, confesso.

Mas os leitores do BomSenso.org pediram e como o cliente tem sempre razão, mãos à obra.

O texto do Wagner está destacado em itálico. Os meus comentários estão em negrito.

Vez ou outra faço referências a filmes nas respostas, só para combinar com a carreira cinematográfica do rapaz.

 

Pela legalidade

 Ser legalista não é o mesmo que ser governista, ser governista não é o mesmo que ser corrupto.

O Capitão entra com o pé na porta. Afinal, a primeira cena sempre tem que ser apoteótica para cativar o público. Estilo “Resgate do Soldado Ryan”.

Parei e pensei nessa frase por uns três segundos. Cocei a cabeça pensando ter encontrado uma genialidade implícita, mas depois cai na real e vi se tratar de uma grande baboseira.

 O sentido da frase é tão verdadeiro quanto o seguinte silogismo:

 “Deus é amor,

O amor é cego,

Stevie Wonder é cego,

Logo, Stevie Wonder é Deus.”

Os irmãos Coen não fariam melhor. Resta saber se o que vem pela frente no texto é uma comédia de erros ou de um humor nonsense. Pessoalmente, sempre preferi “O Grande Lebowski” a “Fargo”.

 É intelectualmente desonesto dizer que os governistas ou os simplesmente contrários ao impeachment são a favor da corrupção.

Ora, Wagner, não seria igualmente desonesto dizer que quem apoia o impeachment é golpista?

Mas tudo bem, vamos ao seu argumento. Sinceramente, não conheço quem apoie o atual governo e seja a favor do impeachment.

Além disso, convenhamos, com tanta corrupção escorrendo pelos ralos do governo petista, impossível se manter governista sem ser complacente com toda essa sujeira, não é mesmo?

Embora me espante o ódio cego por um governo que tirou milhões de brasileiros da miséria e deu oportunidades nunca antes vistas para os pobres do país, não nego, em nome dessas conquistas, as evidências de que o PT montou um projeto de poder amparado por um esquema de corrupção. Isso precisa ser investigado de maneira democrática e imparcial.

Mea culpa.

Mas peraí. Se o próprio autor admite que o PT montou um projeto criminoso de poder, como dizer se tratar de um ódio cego e sem motivação?

Simples: porque não é. Não é nem ódio, nem é cego e nem é sem motivação.

Aliás, esse discurso de ódio faz parte da velha retórica da vitimização petista. Olha aí o nós contra eles de novo.

Poxa, Capitão, você pode fazer melhor, vai.

Na verdade, o objetivo do Wagner com esse parágrafo é apelar para o emocional, ao lançar mão do velho argumento: “ele era funkeiro mas era pai de família”.

Oras, diante da pilhagem do estado brasileiro perpetrada durante mais de uma década, de que tipo de desvios de caráter estaríamos diante, Wagner? O fato de programas sociais terem sido implementados no mesmo período em que assaltaram o país atenua o delito, é isso? 

Isso sim é intelectualmente desonesto. Aliás, seria totalmente desinteressada a defesa, considerando a grana que Wagner captou via Lei Rouanet?  

Na maior cara de pau seu discurso transforma Hannibal Lecter em Meu Malvado Favorito. Ainda bem que sem os Minions. Odeio os Minions, com todas as minhas forças.

Tenho feito inúmeras críticas públicas ao governo nos últimos 5 anos. O Brasil vive uma recessão que ameaça todas as conquistas recentes. A economia parou e não há mais dinheiro para bancar, entre outras coisas, as políticas sociais que mudaram a cara do país. Ninguém é mais responsável por esse cenário do que o próprio governo.

Olha, se fez crítica, eu nunca vi. Nem eu nem o Google. Até perdi meu tempo em procurar. Mas, vá lá. Segue o barco.

Seriam tais críticas do tempo do cinema mudo?

O esfacelamento das ideias progressistas, que tradicionalmente gravitam ao redor de um partido de esquerda, é também reflexo da decadência moral do PT, assim como a popularidade crescente de políticos fascistas como Jair Bolsonaro.

Aqui o Capitão erra tanto que nem sei por onde começar. Me senti dentro de um filme beeeemmm doido do David Lynch. “Cidade dos Sonhos”, talvez?

Mas tentemos analisar.

Wagner, não sei se você sabe, mas progressismo e fascismo são facetas da mesma moeda e ambos têm origem na esquerda. Já assistiu “Vincere”? Filmaço. Recomendo.

Logo, chamar o Bolsonaro de fascista é o mesmo que chamá-lo de esquerdista. Consegue enxergar como o seu PT está assim, coladinho com o Bolsonaro, Capitão?

Mas isso é detalhe. O pior é a defesa do progressismo como se fosse algo bom para quem quer que seja. O modelo progressista implica em dar a algumas mentes aparentemente iluminadas e monopolistas da virtude e do conhecimento o poder de decidir o que é melhor para o desenvolvimento de uma nação. Essas pessoas, no caso, seriam os amigos de esquerda do Capitão.

Bem, é só ver onde estamos agora para perceber que isso não dá muito certo, né? Em resumo: intervir na economia, na sociedade e na vida alheia, invariavelmente resulta em um regime servil e castrador da liberdade.

É mais ou menos isso o que o Biff Tannen aprontou quando rouba o livro com os resultados dos jogos em De Volta para o Futuro 2. Dá errado. Sempre.

No mais, pensei até em gastar algumas linhas tentando explicar pro Wagner que o livre mercado é o melhor sistema de distribuição de renda jamais criado, que as pessoas são mais felizes quando os governos não intervêm nas decisões das vidas delas, et cetera e tal, mas desisti. Seria perda de tempo.

É possível que a esquerda pague por isso nas urnas das próximas eleições. Caso aconteça, irei lamentar, mas será democrático. O que está em andamento no Brasil hoje, no entanto, é uma tentativa revanchista de antecipar 2018 e derrubar na marra, via Judiciário politizado, um governo eleito por 54 milhões de votos. Um golpe clássico.

Se a esquerda sair derrotada em 2018, será democrático, realmente. Tem razão.

No mais, vamos parar com essa história de tirar na marra. Impeachment é um processo previsto na constituição e de viés estritamente democrático. Aliás, nada mais legalista que isso, Capitão. E não tem nada a ver com Judiciário, filhote. O processo corre no Poder Legislativo e depende de quoruns bem pesados para ser aprovado.

O BomSenso.org vem tratado reiteradamente do assunto e não quero parecer repetitivo. Leia uns artigos nossos ai. “É de graça”, igual a tudo no seu governo. Só que não, até porque nada é de graça.

Agora, golpe mesmo foi o que aprontaram em Cuba, muito embora sua turma insista em chamar aquilo tudo que aconteceu de revolução.

Aqui no Brasil, estamos só pedindo que se cumpra a constituição. Não sabia que isso tinha o nome de “golpe”. Questão de semântica, Wagner?

O país vive um Estado policialesco movido por ódio político. Sergio Moro é um juiz que age como promotor. As investigações evidenciam atropelos aos direitos consagrados da privacidade e da presunção de inocência. São prisões midiáticas, condenações prévias, linchamentos públicos, interceptações telefônicas questionáveis e vazamentos de informações seletivas para uma imprensa controlada por cinco famílias que nunca toleraram a ascensão de Lula.

Você que, como eu, gostaria que a corrupção fosse investigada e políticos corruptos fossem para a cadeia não pode se render a esse vale-tudo típico dos Estados totalitários. Isso é combater um erro com outro.

Ah, os bons e velhos inimigos imaginários que povoam o discurso clássico dos esquerdopatas. Só faltou falar da CIA e dos militares. Parece filme de paranoia política da década de 70: “A Trama” ou “Sob o Domínio do Mal”.

Para eles, sempre há de haver um lugar “Onde vivem os monstros”.

Groselha pura.

Todos os réus estão tendo seus direitos constitucionais respeitados e preservados.

Responda rápido, Wagner: até agora, quantas decisões do Sergio Moro foram reformadas pelo STF apinhado de indicações do PT? Ou por outros tribunais? Quantos acusados, fora o pessoal do PT, tem saído na mídia reclamando do tratamento inconstitucional e desumano recebido?

 Queremos cadeia para todos os picaretas, independentemente da legenda.

Em nome da moralidade, barbaridades foram cometidas por governos de direita e de esquerda. A luta contra a corrupção foi também o mote usado pelos que apoiaram o golpe em 1964.

Falar que o regime militar que reinou no Brasil após 1964 era governo de direita é sacanagem, Wagner. Era ditadura intervencionista. Picaretagem total, coisa do “Mentiroso”.

Mas voltemos ao argumento: fale mais das barbaridades. Das “de direita” e das “de esquerda”. Ah, e defina “moralidade”.

Só não vale generalizar, ok?

Arrepio-me sempre que escuto alguém dizer que precisamos “limpar” o Brasil. A ideia estúpida de que, “limpando” o país de um partido político, a corrupção acabará remete-me a outras faxinas horrendas que aconteceram ao longo da história do mundo. Em comum, o fato de todos os higienizadores se considerarem acima da lei por fazerem parte de uma “nobre cruzada pela moralidade”.

Não dá para associar a Lava Jato a um partido político só. Aliás, a maioria dos políticos nela envolvidos são do PP (e não do PT).

Mas enfim, de quais faxinas “morais” estamos falando, Wagner? Geralmente, a expressão “moralidade” costuma ser empregada ao sabor das circunstâncias.

Hitler, um esquerdista convicto, matou milhões de judeus com base em seu conceito de moral. Petistas têm atacado a professora Janaina Paschoal, co-autora do pedido de impeachment, com ameaças horrendas, com base na moralidade deles. Junte a esses exemplos outros vários de pessoas a favor do impeachment sendo ameaçadas e acossadas.

Isso é moral? É ético?

A tal “limpeza” na verdade sempre foi objetivo dos poderosos da situação, em nome do senso “moral” do PT e seus asseclas: eliminar, ridicularizar ou desacreditar todos que de alguma forma fazem oposição.

Não me recordo de ninguém apoiar a Lava Jato em nome da moralidade. Isso é coisa da época da Marcha pela Família e pela Liberdade. Hoje em dia, o que se pede é apenas que se pare de roubar. Porque é errado, sabe? É crime, sabe? A questão é ética, amigo. Não é moral. São coisas diferentes.

As pessoas estão indo em cana porque cometeram crimes. E quem delinque, tem que ser punido. “Só” por isso.

Você que, por ser contra a corrupção, quer um país governado por Michel Temer deve saber que o processo de impeachment foi aceito por conta das chamadas pedaladas fiscais, e não pelo escândalo da Petrobras. Um impeachment sem crime de responsabilidade provado contra a presidente é inconstitucional.

Curto e grosso aqui: pedalada é crime de responsabilidade sim.

Só pra checar, Wagner: o governo quebrou o país em R$ 40 bilhões em 2014, mas escondeu isso de todo mundo, com base numa ginástica contábil. A grosso modo, pedalada fiscal é isso: ir à bancarrota e jogar por debaixo do tapete.

“O Brasil quebrou, mas não contamos pra ninguém, viu?”

Não é crime? Não é grave?

E se fosse uma empresa privada da qual você fosse acionista? Iria ai, ficar de boa, minimizando o fato? Pra você entender melhor: “A Grande Aposta”. Quem sabe ainda esteja nos cinemas. E só pra constar: o nerdão vivido pelo Christian Bale dá de 10 a 0 no seu Pablito. 

Quanto à prova, precisamos dela quando há a confissão por parte do governo?

Deixemos que o Congresso Nacional democraticamente avalie isso. Se entenderem que não teve motivo para impeachment, tranquilo.

Pra fechar: quem votou na Dilma votou no Temer. Você votou no Temer, Capitão! Sério mesmo. Duas vezes. De verdade.

Aliás, eu nem gosto do Temer, não votei nele, mas temos que respeitar o que está na constituição. Isso é ser, nas palavras suas, legalistas.

O nome de Dilma Rousseff não consta na lista, agora sigilosa, da Odebrecht, ao contrário dos de muitos que querem seu afastamento. Um pedido de impeachment aceito por um político como Eduardo Cunha, que o fez não por dever de consciência, mas por puro revide político, é teatro do absurdo.

E daí?

Vide pedalada fiscal acima.

Só um detalhe: AINDA não consta. Depois que homologarem a delação da Andrade Gutierrez, do Feira e da Xepa a gente fala de novo, pode ser? Mas independentemente disso, já há motivo para o impeachment. Sobram motivos. 

A referência ao Cunha – que deveria estar em cana, é verdade – é tão tacanha que não vou nem me aprofundar.

O fato de o ministro do STF Gilmar Mendes promover em Lisboa um seminário com lideranças oposicionistas, como os senadores Aécio Neves e José Serra, é, no mínimo, estranho. A foto do juiz Moro com o tucano João Doria em evento empresarial é, no mínimo, inapropriada.

Putz, Wagner, agora você me pegou.

Mas espere, vou consultar aqui na “Matrix”.

Hum, achei. O que dizer dessas fotos aqui, Wagnão? Só por isso Dilma ou Lula viraram ditadores, assassinos ou presidiários? Bem, há controvérsias, mas, sigamos.

CollorDilmaFacebookCollor2013-611688001-2013-611629525-2013050937177.jpg_20130509.jpg_20130510lula_siria9d46412a7994e72dc9e44f4e0f8abdf2maxresdefault

E se você também achar que há algo de tendencioso no reino das investigações, não significa que você necessariamente seja governista, muito menos apoiador de corruptos. Embora a TV não mostre, há muitos fazendo as mesmas perguntas que você.

Ufa, cheguei ao final. Mas espera ai. O texto não era para defender o governo? Juro que pensei que fosse.

Não é mais? Isentou, Wagnão? Justo na parte final o discurso muda?

Que porcaria de final, cara.

 Pior do que “Sinais”. Parabéns, você superou o insuperável.

Depois dessa, Capitão, eu desisto.

Até pensei em pedir pra você sair.

Mas antes que você insista em ficar, saio eu.

Quo vadis, Brasil?