Sign up with your email address to be the first to know about new products, VIP offers, blog features & more.

Pequenos atos, grandes estragos

Do Conselho Editorial

Hoje será um dia normal. Após despertar, comerei um delicioso pão com requeijão, lançar-me-ei num revigorante banho, deixando minha casa em direção ao trabalho com meu automóvel. Aproveito e, no caminho, levarei meus filhos à escola. Na volta, à noite, trarei um novo jogo de videogame para a diversão dos infantes. Enquanto estes brincam, consigo degustar um relaxante bombom em minha janela, podendo pensar na vida.

O excerto acima reflete a vida normal de muitas das pessoas, na grande maioria dos países em que a liberdade é a regra.

Todavia, no Brasil, tais atividades banais do cotidiano podem esconder condutas ilegais do indivíduo, pequenas transgressões à norma, mas que somadas levam à avalanche de ilegalidade que culminam no descrédito de toda uma nação.

Num misto de egoísmo com “malandragem”, há muita gente que coloca seus interesses, a resolução de seus problemas ou a facilitação de suas tarefas quotidianas em detrimento do coletivo e do respeito às normas postas no país.

Famosa expressão, Lei de Gérson, aquela pela qual obtenho os maiores benefícios com os menores sacrifícios, mesmo que em prejuízo de todos os demais e com atropelo das regras, está incutida no inconsciente do povo brasileiro. Ao menos em sua maioria.

E o somatório de pequenas atitudes egoístas, leves ultrapassagens do limite da lei e aceitação pacífica do errado, leva um país inteiro em espiral ao estado de barbárie, verdadeira anarquia de civilidade e respeito ao próximo, comumente vista no Brasil.

Voltando à situação descrita no início do texto, pode parecer apenas mais uma narrativa simplória de um dia comum na vida de uma pessoa sem surpresas. Lar, alimentação, higiene, deslocamento, filhos, descanso. No entanto, pode esconder inúmeras ilegalidades.

O requeijão, no exemplo acima, teve um desconto de 50% dado pela própria pessoa. Desde criança presenciei, revoltado, consumidores trocando as etiquetas de preços de produtos no supermercado, pagando preço menor após a troca. À época, com etiquetas individuais de papel colocadas nos produtos, era comum o “esperto” pagar menos. A tecnologia dos códigos de barras e outras, ainda bem, resolveu essa vil prática quase totalmente. Infelizmente não foi a consciência e a sensação do indevido que resolveu antes.

Não só o preço do alimento. O refrescante banho foi tomado com energia elétrica furtada de poste, o famoso “gato”. Conduta normal no Brasil que onera os que possuem ligações corretas de energia e pagam regularmente suas contas. Pago o meu e o do infrator.

O automóvel, por estar com licenciamento vencido, foi parado em abordagem policial. Sabedor que rodava com pendências documentais e que teria o carro recolhido, pagou à autoridade quantia em dinheiro. Ambas as partes, satisfeitas pela negociação de afrouxamento da lei, que vale para todos. Ou deveria.

Ao estacionar defronte à escola para desembarque dos filhos, parou em guia rebaixada, atrapalhando morador, com parte do veículo sobre faixa de pedestres, dificultando a travessia.

Antes de voltar para o merecido descanso no lar, adquiriu um jogo falsificado em barraca de ambulante. O desenvolvedor do produto e o comerciante legalizado foram prejudicados, já que o falsificador e o vendedor que difunde a contrafação conseguem melhores preços de venda.

Terminando seu comum dia, nosso cidadão fictício deleitou-se com um bombom de chocolate adquirido no semáforo de grande avenida, verdadeira pechincha, produto receptado de roubo de carga ocorrido dias antes.

Desta forma, peço licença ao site BomSenso.org para reproduzir parágrafo de seu último ensaio “estamos vencendo a corrupção?”, que, com maestria, encerra este texto e o resume.

“Permanece quase intocado o costume da malandragem, do jeitinho, do levar vantagem nas menores coisas, que permeia grande parte das relações, sejam entre privados, ou entre privado e o público. Não é difícil concluir que a corrupção nas mais altas esferas do governo e das empresas é reflexo da pequena corrupção”.

logo