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“O Pior Cego É O Que Não Quer Ver” – Edição Inaugural

Certo dia ouvi um conto sobre quando Raymond Kroc, na década de 50, empolgado com sua rede de lanchonetes, encontrou em Atlanta um fabricante de bebidas, e foi conhecê-lo, porém esse fabricante, Asa Griggs, já conhecia os restaurantes de Ray, e isso facilitou uma proposta ser aceita: aquela bebida não seria vendida mais barata a nenhum concorrente direto, e somente aquela bebida seria comercializado na rede de lanchonetes. Um aperto de mãos depois e estava firmado o contrato de fornecimento exclusivo com cláusula de melhor preço entre McDonald’s e Coca-Cola, vigente há mais de meio século em todo o globo. Reza a lenda que esse acordo verbal nunca foi formalizado em forma de contrato escrito.

O contrato é feito para ser cumprido e obriga as partes em seus termos, regra que deveria ser seguida de maneira espartana por todos: existem exceções, mas geralmente os contratos são formulados, discutidos e assinados levando em consideração um cenário inicialmente imaginado, mas em um ambiente altamente hostil à realização de negócios como é o brasileiro, com um vasto repositório legal, sempre em constante alteração, e com um Judiciário lento e custoso que raramente entende a realidade de um novo negócio, torna-se muito difícil que uma avença seja estritamente cumprida: firma-se o contrato e lida-se com os problemas depois.

Este contrato que pode explodir a qualquer momento: ele não foi feito para ser cumprido! Sempre que uma das partes quiser romper o contrato, baseado simplesmente na cultura brasileira e sua lei suprema: a Lei de Gérson, a de sempre se dar um jeito conseguir levar vantagem. É a cláusula do “jeitinho brasileiro”, tão condenado pelos editores de BomSenso.org.

gerson

Muitos podem considerar temerária a afirmação, mas o brasileiro assina contratos sem ler e para não cumprir. Só descobre que tem que cumprir alguma coisa quando não conseguiu resolver qualquer controvérsia na conversa, no jeitinho. É o domínio da teoria do caso fortuito e da força maior, amparadas na dita cláusula do “jeitinho brasileiro” – não escrita, mas extremamente vinculante.

Para nós, tudo é imprevisto e imprevisível, claro sinal da inconsequência do brasileiro médio – que vai desde os populares compradores compulsivos em 144 vezes aos acionistas do grupo X. Esse grande problema dá causa a momentos de crises institucionais como o atual: muitos contratos são simplesmente inexequíveis. Inexplicáveis. Incoerentes. E o descumprimento contratual é regra, jamais a exceção.

Fica evidente que se trata de um problema sistêmico: a mudança cultural é um passo importante para começar a mudar esse quadro e fazer com que os contratos assinados reflitam cada vez mais os negócios dos quais se originam e assim, sejam cumpridos, aumentando o valor de se fazer negócios no Brasil.