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Nárnia e Macunaíma

A narrativa da nova esquerda brasileira, hoje hegemônica, transporta qualquer leitor ou aluno desavisado a um mundo mágico, uma espécie de Terra Média tupiniquim, uma mistura de Nárnia com Macunaíma. Esse universo vive um grande Fla-Flu metafísico em que os protagonistas não são indivíduos, mas “coletivos” e “redes” etéreos e fluidos, talvez tão arquetípicos quanto os orixás. À diferença destes, porém, os personagens dessa mitologia se apresentam em lados opostos e moralmente muito bem definidos.

Do lado esquerdo do ringue, vestindo camisas e bonés vermelhos, estão as vítimas oficiais, os chamados “movimentos sociais”, infinitos em sua coragem e justeza. Os “negros”, as “mulheres” (1), os defensores de direitos humanos, as quebradeiras de coco, os quilombolas, as comunidades de fundo de pasto e os indígenas, entre muitos e muitos outros. Com lugar de destaque, como mestre-sala e porta-bandeira nesse carnaval pago pela Viúva, estão os representantes máximos do Bem e da Justiça: os sem-terra e os sem-teto. Sua arma, uma funda de cânhamo orgânico, com a qual atiram as suas temíveis caxirolas e seu chororô irritante.

Do lado direito, trajando fraque, Rolex dourados e de malas prontas para Miami, quase todos os demais: os machos escrotos, as elites brancas e os coxinhas; os homofóbicos, transfóbicos e gordofóbicos; a polícia, o PIG e uzamericânu; gente que, em seu privilégio cis-hétero, espuma de raiva à menção de Foucault ou à visão da Regina Casé. Uma corja que “é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante” (2). Armados de arsenal infinito de micro e macroviolências que conseguiram em algum “cheat” no videogame da vida, esses monstros se alimentam do sangue de crianças negras e pobres e das lágrimas das mulheres que estupram nos “campi” mundo afora. São Paulo é seu habitat por excelência.

Essa narrativa tosca e primitiva está presente em qualquer cobertura da “grande mídia” sobre os confrontos entre “manifestantes” do MPL e a PM; em qualquer sala de aula de faculdade pública ou privada; em qualquer ONG de direitos humanos; em praticamente todos os sindicatos; e em boa parte das nossas igrejas católicas.

É possível sair desse transe, ver o mundo com os próprios olhos, pensar com a própria cabeça e julgar com o próprio coração? Evidentemente. Sempre. Mas isso tem um preço alto, muitas vezes caro demais: para boa parte dos seus amiguinhos e coleguinhas, você automaticamente fará parte dos vilões do saloon e perderá oportunidades sociais, profissionais e até mesmo amorosas. Até mesmo na sua família, você será o tio reaça e insensível, que não se preocupa com as maldades do Feliciano ou com o sapo da Juréia. Intelectualmente, você verá que dá muito mais trabalho chegar a suas próprias conclusões. É mais confortável andar de bicicleta com a ajuda das rodinhas ideológicas do nosso coitadismo.

A pergunta inescapável: como no filme Matrix, por que escolher a pílula azul da “ignorância da ilusão” e não a outra, a da “verdade da realidade”? Talvez porque nossa Matrix tabajara seja de quinta categoria, com enredo e atores da famigerada peça “Macaquinhos”… Por falar em nossos ancestrais, aposto que os primeiros hominídeos que andaram em duas patas devem ter sido muito mal recebidos entre a macacada, e a nova postura deve ter sido meio inicialmente meio incômoda. Mas, de alguma forma, por alguma força da natureza, resolveram andar com a espinha ereta. Não os decepcionemos.

(1) Vai entre aspas mesmo, porque, se fossem todos os pretos ou pardos e todas as mulheres do Brasil, seriam algo em torno de 80% da população.

(2) By Chauí, a petista da FFLCH.