“O Pior Cego É O Que Não Quer Ver” – Edição Inaugural

Por Steve Wonder, do Conselho Editorial de BomSenso.org

Certo dia ouvi um conto sobre quando Raymond Kroc, na década de 50, empolgado com sua rede de lanchonetes, encontrou em Atlanta um fabricante de bebidas, e foi conhecê-lo, porém esse fabricante, Asa Griggs, já conhecia os restaurantes de Ray, e isso facilitou uma proposta ser aceita: aquela bebida não seria vendida mais barata a nenhum concorrente direto, e somente aquela bebida seria comercializado na rede de lanchonetes. Um aperto de mãos depois e estava firmado o contrato de fornecimento exclusivo com cláusula de melhor preço entre McDonald’s e Coca-Cola, vigente há mais de meio século em todo o globo. Reza a lenda que esse acordo verbal nunca foi formalizado em forma de contrato escrito.

O contrato é feito para ser cumprido e obriga as partes em seus termos, regra que deveria ser seguida de maneira espartana por todos: existem exceções, mas geralmente os contratos são formulados, discutidos e assinados levando em consideração um cenário inicialmente imaginado, mas em um ambiente altamente hostil à realização de negócios como é o brasileiro, com um vasto repositório legal, sempre em constante alteração, e com um Judiciário lento e custoso que raramente entende a realidade de um novo negócio, torna-se muito difícil que uma avença seja estritamente cumprida: firma-se o contrato e lida-se com os problemas depois.

Este contrato que pode explodir a qualquer momento: ele não foi feito para ser cumprido! Sempre que uma das partes quiser romper o contrato, baseado simplesmente na cultura brasileira e sua lei suprema: a Lei de Gérson, a de sempre se dar um jeito conseguir levar vantagem. É a cláusula do “jeitinho brasileiro”, tão condenado pelos editores de BomSenso.org.

gerson

Muitos podem considerar temerária a afirmação, mas o brasileiro assina contratos sem ler e para não cumprir. Só descobre que tem que cumprir alguma coisa quando não conseguiu resolver qualquer controvérsia na conversa, no jeitinho. É o domínio da teoria do caso fortuito e da força maior, amparadas na dita cláusula do “jeitinho brasileiro” – não escrita, mas extremamente vinculante.

Para nós, tudo é imprevisto e imprevisível, claro sinal da inconsequência do brasileiro médio – que vai desde os populares compradores compulsivos em 144 vezes aos acionistas do grupo X. Esse grande problema dá causa a momentos de crises institucionais como o atual: muitos contratos são simplesmente inexequíveis. Inexplicáveis. Incoerentes. E o descumprimento contratual é regra, jamais a exceção.

Fica evidente que se trata de um problema sistêmico: a mudança cultural é um passo importante para começar a mudar esse quadro e fazer com que os contratos assinados reflitam cada vez mais os negócios dos quais se originam e assim, sejam cumpridos, aumentando o valor de se fazer negócios no Brasil.

É carnaval

Por José Licínio

É carnaval.

Todos os anos recursos públicos são despejados em escolas de samba e eventos afins por todo o país.

O conservadorismo estatista faz com que o Estado “empreenda” na festa popular mesmo quando faltam recursos para os serviços públicos essenciais.

Em Caxambu/MG, de tantos carnavais, não seria diferente, apesar da grave crise financeira de que padece a municipalidade. Mas liminar da justiça, em ação do Ministério Público, impede que o governo local gaste com o carnaval 2016.

Falta bom senso espontâneo neste gigante Estado desgovernado.

hrcarna

Jabuticabas e desordem

Conselho Editorial – BomSenso.org

Sempre ouviu-se que “certas coisas só acontecem no Brasil”. E, analisando friamente, razão não há para desacreditar nessa máxima da experiência, constatada desde o humilde trabalhador que se informa através de noticiário raso, até o estudioso intelectual dos costumes nacionais.

Quando pensamos em algo genuinamente nacional, há ligação automática com o Carnaval e o povo festivo, políticos corruptos impunemente reeleitos e eleitores despreocupados com as consequências de seu voto e, porque não, a saborosa e pitoresca jabuticaba, dentre outras características inatas a este país de variados costumes.

Contudo, em um aspecto o Brasil se destaca pela originalidade da criação: a usurpadora privatização do espaço público. Não se pode, desde logo, olvidar de seus corolários nefastos, tanto na saudável convivência entre as pessoas quanto no rebaixamento patente da qualidade de vida de todos que seguem a lei.

Usurpação pois faceta de ocupação prejudicial à coletividade, através de conduta egoísta de individualismo que busca lucro fácil, sem investimento que beneficie um crescer sustentável, sem respeito às regras existentes e causando desconforto àquele que não deseja a contratação do serviço.

Pois bem, pensemos no caso do “guardador de carro”, também denominado “flanelinha” em algumas regiões do país. Uma pessoa se investe do direito de, em via pública, cobrar para que outro concidadão estacione seu carro, sob o argumento de incremento da segurança do bem estacionado. Justifica, contudo, ser uma “contribuição voluntária” o pagamento.

flanelinha

Ora, temos inúmeros aspectos ilegais nessa conduta. Por primeiro, o pagamento a que se refere o ocupante indevido de espaço de todos é decidido unilateralmente, sob clara coação ao cidadão, muitas vezes com auxílio de outros apropriadores do espaço no entorno como forma de pressão, com ameaças à integridade do veículo e, pior, à inviolabilidade física do que estacionou. Clara realização de crime de extorsão, inclusive.

Mais, sua presença de antemão já provoca um freio psíquico naquele que se dirigirá a um local sabidamente com a presença deste ilegal, causando irritabilidade desagregadora, que gera efeitos indeléveis na harmonia social e na qualidade de vida já debilitada.

Não bastasse, o prejuízo econômico ao comércio é imensurável, já que não há como quantificar o número de pessoas que desistem de comprar em locais com a presença dos ocupantes da via pública, com a consequente queda da arrecadação de impostos e geração de empregos. E esse alto número de infortúnios gerados, além de não trazer qualquer benefício para as pessoas e a atividade econômica, ainda propicia um lucro egoísta e indevido ao desrespeitador da lei, que não presta contas de sua atividade e não recolhe impostos que poderiam ser aplicados em benefício da coletividade.

Não há como continuar essa situação, devendo ser combatida pelo Poder Público de forma séria e imediata. Do contrário, há cristalino prejuízo a todos: aos que usam as vias e têm cerceados direitos de locomoção, e aos que dependem de estacionamento desimpedido nas ruas para promover o livre mercado de circulação de bens e serviços.

Assim, muito além de configurar crime, o que, por si só, seria gravíssimo de tolerar, a ocupação do espaço público de forma particular gera efeitos na piora da qualidade de vida de uma cidade e no prejuízo da atividade econômica, corolário básico para o fomento de uma nação mais livre.

Operação Triplo X repercute no litoral paulista e até em Hollywood

Romildo Perez – da redação local.

Deflagrada na manhã desta terça-feira, a 22ª Fase da Operação Lava Jato, denominada “Triplo X”, causou corre-corre em todo o litoral paulista e chegou até mesmo a preencher os noticiários noturnos de Los Angeles, Califórnia.

Essa etapa da operação tem por alvo investigar a origem do dinheiro empregado na compra de imóveis tríplex de luxo localizados na cidade do Guarujá. Segundo fontes da Polícia Federal e do Ministério da Justiça, não há qualquer relação partidária ou vinculação dos apartamentos com os escândalos de corrupção que consistem no objeto maior da operação Lava Jato.

“Não há vínculo algum entre uma coisa e outra. Todos os proprietários de apartamentos tríplex no litoral serão investigados. Estamos avaliando ainda se as investigações serão estendidas a todos que possuírem refrigeradores duplex em suas residências, mas somente aqueles de portas ‘side-by-side’. Proprietários de ‘frost free’ podem ficar despreocupados”, disse um agente que não quis se identificar.

Preocupado com os rumores de que o alvo final da investigação seria o ex-presidente, o Instituto Lula disse em nota: “o ex-presidente, tampouco qualquer de seus familiares, nunca tiveram (sic.) apartamento tríplex, geladeira duplex, nunca usaram Durex e muito menos comeram em pratos Duralex. Aqueles que espalharem esses boatos serão processados dentro do rigor da lei”.

Mesmo assim, a notícia provocou uma corrida às imobiliárias locais, que se assustaram com o número de pessoas buscando vender seus apartamentos, por valores de ocasião. Vestindo bermuda e uma camiseta escrita “Lula Lá”, das eleições de 1989, o sindicalista aposentado Cido Cachoeira disse: “Não tenho nada a esconder, mas nunca se sabe. Acho melhor vender logo para não sofrer constrangimento. Essa polícia é violenta e não escolhe entre bandido e inocente. Dei sorte. Consegui um comprador hoje mesmo e já entrei em contato com o pessoal do Panamá para ‘bater o contrato’ e mandar a papelada da offshore”.

A milhares de quilômetros de distância dali, a Triplo X foi destaque no noticiário noturno de Hollywood. Estatísticas do Netflix mostraram que o número de brasileiros que assistiram ao filme homônimo de 2002, estrelado por Vin Diesel, aumentou 849% nas últimas 24 horas. O número de novos assinantes nas últimas 24 horas subiu 34%.

Com tamanha repercussão, a Fox estuda reativar a franquia e já trabalha num roteiro a ser filmado no Brasil. “É uma oportunidade única”, disse o produtor Matthew Rodgers, que emendou: “pensávamos que a franquia estava extinta após o segundo filme com o Ice Cube. Vin fez falta. Foi como se pedíssemos o Will Smith e nos liberassem o Martin Lawrence. Estamos muito empolgados com essa história toda”.

Ocupado com as filmagens de Velozes e Furiosos XXVIII, Vin Diesel se manifestou via Twitter: “Me sinto honrado em ter meu trabalho divulgado pela polícia brasileira. Amo o Brasil: mulheres, festas, caipirinhas e carnaval. Nos vemos em breve”.

Indagada sobre a repercussão do caso, a cúpula do PT foi enfática: “a aquisição de imóveis no Brasil por empresas estrangeiras é algo permitida pela legislação, muito comum e corriqueira, e não pode ser tratada a priori como fraude. Trata-se de um novo abuso de autoridade por parte da Polícia Federal.” No tocante a Netflix e ao súbito aumento de assinantes, o Deputado Sibá Machado, falando em nome do partido, afirmou que “se trata de uma empresa estrangeira com estreitos laços com a CIA e que opera praticamente como uma ‘fora da lei’ no país. As receitas dela são pagas no exterior e não podemos suportar mais isso. Estamos avaliando as possibilidades do que pode ser feito, quem sabe até a proibição do serviço. Vamos para o pau”.

CONSELHÃO VOLTA À ATIVA. AGORA VAI!

Com a recente notícia de que o Poder Executivo quer reativar o antigo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, órgão plural e pluripartidário voltado a discutir e debater os grandes temas da nação, o BomSenso.org se esforçou para localizar em seus arquivos registros da última reunião. Os resultados surpreenderam e nosso conselho editorial não conseguiu chegar a um consenso quanto à foto mais fidedigna. Deixemos, pois, nossos leitores opinarem:

( ) A

junina

( ) B

vermelho

( ) C

convencao

( ) D

plumo

( ) E

little monkeys

Nárnia e Macunaíma

A narrativa da nova esquerda brasileira, hoje hegemônica, transporta qualquer leitor ou aluno desavisado a um mundo mágico, uma espécie de Terra Média tupiniquim, uma mistura de Nárnia com Macunaíma. Esse universo vive um grande Fla-Flu metafísico em que os protagonistas não são indivíduos, mas “coletivos” e “redes” etéreos e fluidos, talvez tão arquetípicos quanto os orixás. À diferença destes, porém, os personagens dessa mitologia se apresentam em lados opostos e moralmente muito bem definidos.

Do lado esquerdo do ringue, vestindo camisas e bonés vermelhos, estão as vítimas oficiais, os chamados “movimentos sociais”, infinitos em sua coragem e justeza. Os “negros”, as “mulheres” (1), os defensores de direitos humanos, as quebradeiras de coco, os quilombolas, as comunidades de fundo de pasto e os indígenas, entre muitos e muitos outros. Com lugar de destaque, como mestre-sala e porta-bandeira nesse carnaval pago pela Viúva, estão os representantes máximos do Bem e da Justiça: os sem-terra e os sem-teto. Sua arma, uma funda de cânhamo orgânico, com a qual atiram as suas temíveis caxirolas e seu chororô irritante.

Do lado direito, trajando fraque, Rolex dourados e de malas prontas para Miami, quase todos os demais: os machos escrotos, as elites brancas e os coxinhas; os homofóbicos, transfóbicos e gordofóbicos; a polícia, o PIG e uzamericânu; gente que, em seu privilégio cis-hétero, espuma de raiva à menção de Foucault ou à visão da Regina Casé. Uma corja que “é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante” (2). Armados de arsenal infinito de micro e macroviolências que conseguiram em algum “cheat” no videogame da vida, esses monstros se alimentam do sangue de crianças negras e pobres e das lágrimas das mulheres que estupram nos “campi” mundo afora. São Paulo é seu habitat por excelência.

Essa narrativa tosca e primitiva está presente em qualquer cobertura da “grande mídia” sobre os confrontos entre “manifestantes” do MPL e a PM; em qualquer sala de aula de faculdade pública ou privada; em qualquer ONG de direitos humanos; em praticamente todos os sindicatos; e em boa parte das nossas igrejas católicas.

É possível sair desse transe, ver o mundo com os próprios olhos, pensar com a própria cabeça e julgar com o próprio coração? Evidentemente. Sempre. Mas isso tem um preço alto, muitas vezes caro demais: para boa parte dos seus amiguinhos e coleguinhas, você automaticamente fará parte dos vilões do saloon e perderá oportunidades sociais, profissionais e até mesmo amorosas. Até mesmo na sua família, você será o tio reaça e insensível, que não se preocupa com as maldades do Feliciano ou com o sapo da Juréia. Intelectualmente, você verá que dá muito mais trabalho chegar a suas próprias conclusões. É mais confortável andar de bicicleta com a ajuda das rodinhas ideológicas do nosso coitadismo.

A pergunta inescapável: como no filme Matrix, por que escolher a pílula azul da “ignorância da ilusão” e não a outra, a da “verdade da realidade”? Talvez porque nossa Matrix tabajara seja de quinta categoria, com enredo e atores da famigerada peça “Macaquinhos”… Por falar em nossos ancestrais, aposto que os primeiros hominídeos que andaram em duas patas devem ter sido muito mal recebidos entre a macacada, e a nova postura deve ter sido meio inicialmente meio incômoda. Mas, de alguma forma, por alguma força da natureza, resolveram andar com a espinha ereta. Não os decepcionemos.

(1) Vai entre aspas mesmo, porque, se fossem todos os pretos ou pardos e todas as mulheres do Brasil, seriam algo em torno de 80% da população.

(2) By Chauí, a petista da FFLCH.